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19.8.20

AVE, MAGUILA



O dia do meu aniversário em 1995 foi um negócio fora de série. 
Faz 25 anos, mas não é isso que me faz lembrar desse dia. 
Naquela época, eu sempre comemorava meus aniversários no mesmo karaokê, que chamava Desafinado e não existe mais. 
O dono do lugar, um bigodudo gente boa que a gente apelidou de Belchior (por isso, ninguém lembra o nome dele) adorava quando a gente aparecia por lá. 
Um ano antes, não sei como, quase cem pessoas foram na festa do meu aniversário, no mesmo lugar.
Era um espaço tão pequeno que, quando foi vendido para o hotel vizinho, virou estacionamento do estabelecimento e, quando passo pela rua, quase dá pra ver o palco onde a gente fez tanta merda. 
Se foi um milagre que cem pessoas tenham se espremido lá em 1994, foi mais louco ainda em 1995 – quando a gente levou quase o dobro de gente. 

 Ao mesmo tempo, tinha uma coisa que me deixava cabreiro porque, naquele mesmo dia da festa (marcada pra 19 de agosto, um sábado, porque meu aniversário é dia 20) era o dia em que Mike Tyson fazer sua primeira luta depois de ter saído da prisão e eu não poderia deixar de assistir à luta. 
Veja bem: o ano era 1995. 
Não tinha internet, não tinha YouTube. 
Mal e mal tinha TV a cabo. 
O Léo que era meu grande amigo da faculdade, era um dos poucos caras que tinham TV a cabo e, como presente de aniversário naquele ano, ele me deu uma fita VHS com seis horas só de Pernalonga e Patolino que ele gravou no Cartoon Network. 
Não era só isso: o Marcelo, amizade que vinha dos tempos de colegial, era meu grande parceiro de aventuras e tinha arrumado uma câmera de vídeo e, desta vez, a gente ia conseguir filmar a festa direito. 
Um ano antes, com a câmera da Patty, a gente teve sérios problemas pra acertar o foco e, por providencia divina, creio eu, mal dá pra ver alguma coisa nas filmagens. 
Digo providência divina porque foi uma festa (a de 1994) em que os casais mais improváveis do mundo se formaram – inclusive, dessa festa, saiu um casamento e eu fui padrinho. 

Só que tinha esse lance da luta e, por isso, logo que a gente chegou no karaokê, antes mesmo de entrar, fui na recepção do hotel que ficava ali do lado e perguntei para eles se eles tinham televisão, se eles iam assistir à luta do Tyson e, por último mas não menos importante, se havia algum problema se eu deixasse a festa do meu aniversário e viesse ali pra assistir a luta com eles na recepção do hotel. 
Os caras acharam graça e responderam que claro que eu poderia e, assim, a festa começou e eu fiquei o tempo todo com um olho no peixe e outro no gato e, quando deu a hora certa, a gente foi pra lá em quatro pessoas: o Alex Muller (que hoje é um baita jornalista esportivo na TV), a Dri, a Bia e eu. 
A luta, em si, não passou do primeiro assalto – que era exatamente o que a gente esperava que fosse acontecer, mas a parte no vídeo em que isso acontece ficou registrada, em algum lugar, no vídeo daquela festa. 
Mais uma vez: o ano era 1995 e o filme preferido da gente era Pulp Fiction e, por isso, a gente não viu problema nenhum em meter um letreiro que dizia “o caso Tyson” no meio do vídeo da festa. 
Quando a luta acabou, a gente agradeceu e voltou para anunciar o resultado. 
Assim, o Pizza (como a gente chamava o Alex) anexou mais uma imitação para o seu rol impagável.
Agora, além do Evair batendo pênalti e do Tim Maia cantando “Azul da cor do mar”, ele também imitava o Peter McNeeley sendo nocauteado pelo Tyson. 

Na hora de cantar os parabéns, tinha uma outra mulher fazendo aniversário e um dos convidados dela fez um discurso interminável em homenagem a ela, imitando o Maguila. 
A festa terminou com o dia já clareando e a gente não deixou o Belchior fechar o karaokê antes de encenar uma versão de “We Are The World” com os últimos bêbados que restaram na festa, cada um imitando um personagem (todo mundo queria ser a Cindy Lauper) e, depois, a gente fechou a conta com um cappuccino no Franz Café da Antonio Tavares. 
Lembro de ter saído pra fumar um cigarro e ter visto uma cena que jamais vi de novo: o sol nascendo no horizonte, bem ao lado da lua, que ia se escondendo. 
Parecia uma daquelas cenas do começo de Star Wars, quando Luke ainda mora em Tatooine. 

Parecia que a festa tinha acabado ali, mas não. 

Como a maior parte dos meus amigos tinha ficado na festa enquanto eu fugi para assistir a luta do Tyson, a gente combinou outra festa para terça-feira. 

Quem diabos marca uma festa em uma terça-feira, você pode pensar. 

Camarada, veja bem. 

O ano, como eu já disse, era 1995 e, naquela terça-feira, dia 22 de agosto, Maguila ia disputar o título mundial dos pesos-pesados em Osasco e foi essa a luta que a gente combinou de ver, desta vez com todo mundo junto. 

O lugar escolhido foi um boteco sem nome que tinha perto do Júlio Pereira Lopes, o antigo colégio onde alguns de nós tínhamos estudado. Além de ser perto pra maioria, tinha mesas na calçada, alta tolerância para a nossa gritaria e tinha uma TV bem grande lá dentro. 

É engraçado pensar nisso hoje, mas, naquela época, a gente nem perguntou se os caras iam passar a luta do Maguila por motivos de É CLARO QUE ELES VÃO PASSAR. 

Hoje em dia a gente não lembra, mas, quando tinha luta do Maguila, era tipo jogo da seleção. 

Onde tinha TV, tava passando – precisava nem procurar. 
Era só chegar. 

 Em comparação com a luta do Tyson, a luta do Maguila foi mil vezes mais emocionante: um porque valia título mundial (pra gente, não interessava por qual entidade era – era um título mundial e pronto) e, dois, porque o adversário que o Maguila pegou, um inglês chamado Johnny Nelson, era BOM.

Lembro que, no meio da luta, um tiozinho pediu pra sentar junto com a gente na mesma mesa porque a gente tava torcendo de verdade pro Maguila e, pra ele, essa era a coisa certa a se fazer porque o Maguila era um de nós, estava representando o Brasil e porque, pra ele, o brasileiro tinha esse complexo de vira-lata racista e classista que tendia a diminuir o Maguila. 
Para exemplificar o que ele dizia, ele usava os argentinos como exemplo. 
Dizia que, se o Maguila fosse argentino, ele seria um herói como o Ringo Bonavena. 
A gente não conhecia o Bonavena, então ele explicou que, em uma luta que o Bonavena fez contra o Ali, o Ali escorregou e parecia que tinha levado um knock-down. 
Pros fãs argentinos, não tinha conversa: foi knock-down sim e, se o replay mostrasse o contrário, azar do replay, que é burro. 
Pra exemplificar o que falava, ele perguntou pra gente: quem ganhou naquela luta contra o Quebra Ossos? 
 Pra mim era óbvio: o Maguila ganhou. 
 Uns caras que tavam ali perto contestaram na mesma hora: a luta foi roubada, era pro Maguila ter perdido, ele só ganhou porque o Luciano do Valle comprou a luta e outras coisas do gênero. 
Enquanto os caras falavam, o tiozinho me olhava com uma cara de quem diz “entendeu o que quis dizer?”. 
A gente respondeu torcendo ainda mais alto pro Maguila. 
Na época, eu não era capaz de enxergar boxe como enxergo hoje e, se fosse, teria percebido que aquele cara que o Maguila venceu não era só bom e que, apesar de a vitória, ao meu ver, ter sido justa, ela foi extremamente difícil porque o Johnny Nelson era um cara muito técnico e muito difícil de acertar.
Naquela época, a gente não queria saber disso e ficou a luta inteira chamando o inglês de fujão e, depois do resultado, a gente fez uma carreata de um carro só e foi passando na casa de todo mundo que tinha dado o cano na gente para entregar jornal, uma delinquência juvenil moderada que consistia em arremessar pesados rolos de jornal velho na porta da casa de conhecidos (cujo ápice era quando a porta estava aberta e o conhecido em questão era atingido pelo chumaço de jornal). 

Faz 25 anos que isso aconteceu e, por mais que a luta do Tyson tenha sido no dia do meu aniversário, a festa mesmo foi quando o Maguila ganhou o título mundial. 

Agora, 25 anos depois, um dia antes do meu aniversário no ano de 2020, ainda me lembro do que aquele tiozinho falou pra mim no bar, depois que o Maguila já tinha vencido: “veja bem: daqui 30 anos, se as pessoas lembrarem da luta do Tyson, mas não falarem nada sobre a luta do Maguila, é porque o brasileiro não dá o menor valor para os ídolos que tem”. 

Na verdade, eu me adiantei um pouco. 

Não tive paciência para esperar até 2025, que é quando essas duas lutas completam 30 anos, e, agora, em 2020, terminei de escrever um livro que conta a história do Maguila e, junto com ela, tem também a história do Tyson, do Johnny Nelson (que é um dos caras mais importantes que existem hoje no boxe britânico), do, Foreman, do Holyfield e de uma renca de brasileiros: João Henrique, Servílio de Oliveira, Chiquinho de Jesus, Francisco Tomás da Cruz, Danilo Batista, Helio Santana, Peter Venâncio, George Arias e vários outros que sabem muito bem que a história do Maguila é a história de todos nós.

PS: É engraçado pensar que, poucos anos depois que o karaokê mudou de lá, abriu um espaço de boxe bem em frente, que foi a primeira vez que vi o projeto do Nílson Garrido. Quase vinte anos depois, Jack Welson, o cara que me ensinou a ver o boxe, a entender o boxe e me ajudou em cada letrinha que há no livro do Maguila treinava lá, no espaço que tinha atravessando a rua, debaixo do viaduto. 
Hoje em dia, o Garrido não ocupa mais o espaço, mas, em seu lugar, surgiu o #Complexo9, que tem tudo para se transformar no grande espaço de boxe ali no centro de São Paulo. 
  


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14.10.09

At Last (ou “Como você, um disco de Etta James e os pés de Muhammad Ali salvaram a minha pele”)





Tem um disco da Etta James que se chama “At Last!”.
É de 1960 e tem sido minha obsessão mais recente.
Baixei esse disco num dia bem atípico.
Tinha uma música nele que eu queria e foi com ela que tudo começou.
Era sexta-feira e eu estava usando coturnos.
Não usava fazia um puta tempo e, depois de ter passado um puta frio nos pés na quinta, porque minhas meias molharam com a chuva, eu não queria dar sopa – nem pro azar nem pra prováveis frieiras.

“Trust in me” era a música da minha obsessão.
Little did he know.

Na real, minha obsessão–mor tem sido outra e já faz tempo.
Chama-se Joice Viana Mendes.
Em menos de 24 horas, a gente estaria junto e isso me maravilhava ainda mais que o disco.
Isso fazia com que o disco – e o universo e tudo mais – fizesse sentido.

Desde o começo da semana, eu vinha andando na rua com pés de Muhammad Ali.
Essa era outra de minhas obsessões menores.
Viciei num jogo de Playstation 2, o Fight Night.
Adotei o Ali como avatar e já faz um tempo que venho construindo minha carreira com ele. Esse dias, beirando as raias do ridículo, depois de ganhar honrosamente de Roy Jones Junior (Jones Junior – nome de pugilista), comemorei a vitória sobre Calvim Brock como se fosse eu quem tivesse levado aquelas porradas todas e apelado pros clinches como eu apelei.
Só que foi nocaute – depois de SEIS knock-downs pra mim.
Quer dizer, pro Ali.
Quer dizer: foda-se.
Eu gritei, pulei e até abri cerveja.
Foi patético, mas... caralho... foi do caralho!

Só que eu andava roubando.
Na madrugada anterior, eu lutei contra um desses lutadores que o computador inventa.
Não lembro o nome dele, mas o filha da puta era o cão pra cair.
Eu tava levando a luta pro décimo primeiro round (achei que eram doze, mas não sei), tendo ganhado TODOS eles até então, quando o cara virou a mesa e eu tava, pela terceira vez, apelando pro clinche.
Pausei o jogo, meti o dedo no botão e desliguei sem salvar.
Pau no cu.
O caralho que ele ia me derrubar.
Não ali, não agora e não numa noite perfeita daquelas quando tudo que eu queria era dormir em paz pra sexta chegar logo.

Então, quando eu acordei, a primeira coisa que eu fiz foi ligar o jogo e cobrir o Oscar de la Hoya de porrada, que é pra isso que ele tá lá (não é?).
Foi um massacre sem tamanho e era só isso que eu queria.
Eu já tinha feito mercado, a cerveja já tava gelando, o café tava pronto.
Enchi uma caneca e liguei o mp3.
Calhou do disco começar justamente com “Trust In Me”.
Esqueci a caneca cheia em cima da pia e fui trabalhar.

Devo ter exercitado o TOC de verificar se a porta ficou realmente trancada umas três vezes porque, quando o elevador chegou no térreo, já tava tocando a música seguinte, “A Sunday Kind Of Love”.
Cara.
Eu me sentia um puta cara de sorte pelo seguinte: as melhores músicas que existem ou são tristes pra caralho ou são felizes pra caralho.
Em ambos os casos, eu gostava delas mais do que jamais gostei.
Quando elas eram felizes pra caralho, eu gostava porque eu ando tendo motivos pra ser o cara mais feliz do mundo – então, elas fazem sentido.
Quando elas eram tristes, elas me deixavam ainda mais felizes – porque eu não precisava conviver com aquele tipo de tristeza.
Era como se eu visse um quadro de uma paisagem com neve e pudesse achar a neve linda – e não sentir frio.

Eu não me engano – eu ia andando pela rua com os pés de Ali, os ouvidos em Etta James – e ia contando as bênçãos, uma a uma, e agradecendo por todas elas – com um coração devoto a mãe de todas elas.

Quando cheguei pra atravessar a Amaral Gurgel, tava tocando “Tough Mary” e a música me fez pensar ainda mais na Joice. Eu já vinha pensando que esse era um disco que ela precisava ter e, com essa música, a coisa ficou irrevogável.
Ela tem batida de rock’n’roll e meus pés de imitar Ali dançavam impacientes, esperando farol fechar.
Quando ele fechou, um carro verde parou depois da faixa de pedestres e eu fui, decidido a passar por trás dele. Esse carro verde tinha um bagageiro daqueles de capô e, em cima desse bagageiro tinha duas escadas e um feixe de canos pretos, de plástico, maiores que o comprimento do carro.
Pulando com os pés de Ali, com Etta James no ouvido e a cabeça em Petrópolis, eu fui.

Não sei por onde foi que a sensação chegou primeiro, mas quando vi, já tava com a mão esticada, tocando o feixe de tubos de plástico que tinha se aproximado ameaçadoramente demais pro meu gosto da minha têmpora direita.
Não sei de onde veio esse reflexo.
O carro verde tinha resolvido dar ré pra tirar o bico do cruzamento com a Major Sertório e provavelmente esqueceu o tamanho das paradas que carregava no bagageiro do capô.
Eu estava em outro planeta, mas botei a mão neles como quem apara um cruzado sinistro daquele lutador que eu não sei o nome, dei dois ou três passos pra trás, com os pés de Ali.
O motorista do carro, de olhos arregalados, pediu desculpas quando eu olhei pra trás. Meneei com a cabeça, como quem diz “esquece, não foi nada” e continuei.
Meus ouvidos voltaram pra Etta James e a música que tinha acabado de começar. Reconheci logo no primeiro acorde.
Se você conhece esse disco, “At Last”, você sabe qual é a música que vem depois e eu não preciso dizer onde estava minha cabeça.
Ela não estava esparramada em pedaços embaixo do Minhocão e isso me bastava.
Eu contava minhas bênçãos e estava feliz pra caralho porque a mãe delas estava pra chegar.
Faltava pouco e aquela música me dizia tudo que eu queria.

Quando cheguei na Praça da República, a faixa título me acertou como um raio. Tem um gesto que eu faço sempre que uma coisa me é sagrada, que é beijar o nó do dedo da mão esquerda e, todo dia, quando eu passo lá atrás do Caetano de Campos, repito esse gesto.
Naquele lugar, quando esse disco não era tão velho assim, minha existência foi viabilizada pra, depois – bota aí “quarenta anos depois” – ela ser justificada.
Naquele lugar, começou a tocar “At Last”, a música, cuja letra diz o seguinte:

“At last, my love has come along
My lonely days are over
And life is like a song
Oh, yeah, at last
The skies above are blue
My heart was wrapped up in clovers
The night I looked at you
I found a dream that I could speak to
A dream that I can call my own
I found a thrill to rest my cheek to
A thrill that I have never known
Oh, yeah when you smile, you smile
Oh, and then the spell was cast
And here we are in heaven
For you are mine
At last”

Enfim.
fim.

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28.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) FINAL





Nesta última parte, eu deixei pra contar algumas histórias que ouvi, vi e li a respeito de Muhammad Ali e que me chamaram atenção. São aquelas histórias que a gente não precisa necessariamente encaixar na cronologia e, por isso, optei pra deixar por último.

Billy Crystal é um grande amigo de Ali. Foi ele que anunciou que ele havia ganhado o prêmio de esportista do século pela Sport Illustrated, em 199, dizendo a mesma frase que eu plagiei na primeira parte do texto: “o que é possível dizer a respeito de Muhammad Ali que ele mesmo já não tenha dito?”.

Crystal disse que um dia estava junto com Ali e sua esposa, Yolanda, e, de repente, ao seu lado começou a ouvir uma espécie de ronco. Olhou e Ali estava ferrado no sono. Nessa época, ele já estava aposentado e, então, Crystal perguntou pra esposa dele se não era melhor acordá-lo e ela, com olhos de terror, disse bem baixinho que andava preocupada com Ali porque ele vinha tendo sonhos com suas lutas passadas e que, no meio desses sonhos, ela tinha que sair do quarto porque ele começava a chamar pelos nomes do lutadores e a soltar porrada pro lado que estivesse virado – que geralmente era o dela. Nessa mesma hora, ele sentiu uma porrada na nuca e Ali, que disse “i’m gonna knock you out, Bugner” já armava a próxima. No momento que Crystal se encolheu, achando que estava fodido, Ali começou a gargalhar, mais acordado que nunca, e contou que era brincadeira, que os dois tinham inventado aquilo tudo só pra fazer uma pegadinha.

Pegadinha era uma coisa que ele curtia fazer desde pequeno, quando amarrava um barbante na cortina do quarto dos seus pais só pra fazer ela se mexer depois que eles estivessem na cama. Outra coisa que Ali fazia quando era moleque, era ficar por horas escondido dentro de armários, esperando pra quem alguém fosse abrir e ele pudesse assustar quem quer que fosse.

Acho que é a Yolanda que diz que acha que a coisa mais notável que seu marido tem é que, na idade dele, as crianças ainda vão até a porta da casa dela e perguntam: "tia, Ali pode sair pra brincar?".

Com Parkinson, ele arrumou um outro jeito de fazer as mesmas coisas. Tem uma entrevista dele, que inclusive foi adaptada pra uma peça sobre Ali que esteve em cartaz na Broadway, em que ele diz que a melhor coisa do Parkinson é que ele não precisa mais fazer as coisas chatas que as pessoas querem que ele faça. Se alguém pede alguma coisa que ele não está a fim, ele finge que não ouviu, se a pessoa começa a perguntar coisas que ele não quer responder, ele começa a responder coisas vagas e aleatórias até o chato ir embora.

Logo que eu comecei a escrever sobre Ali, o Zé Carlos, redator do Pânico, me chamou a atenção pra este vídeo de Ali com George Bush. Na época, Bush era presidente e Ali, com Parkinson e tudo, foi eloqüente como só ele saber ser.
Olha só:



Hana, filha de Ali, conta que, por ser muçulmano, Ali não comemorava o Natal. Mesmo assim, quando era noite de Natal, ele chegava pra ela e dizia: “Hana, vai pegar a lista telefônica”. Ele abria a lista, aleatóriamente, ligava pra qualquer número e dizia “Oi, aqui é Muhammad Ali. Feliz Natal”.
Uma vez, faz muito tempo, numa noite de Natal no clube de campo do Palmeiras, eu liguei pra uma atendente da saudosa Telesp e disse “Olha, eu não conheço você, mas liguei só pra dar um feliz Natal” e a atendente achou bonito a ponto de chorar. Então, não menospreze isso. Faça um dia, mas faça de verdade: realmente ligue pra desejar um feliz Natal praquela pessoa que você não sabe quem é, mas sabe que foi escalada pra trabalhar quando devia estar com a família dela.
Talvez você entenda.

Hana também conta que Ali é o cara que mais dá autógrafo no mundo. Ele nunca recusou um pedido de autógrafo porque, uma vez, quando ele estava bem no começo, pediu um autógrafo a Sugar Ray Robinson e ele disse que estava com pressa e não poderia dar.Depois daquele dia, Ali jurou que, quando fosse famoso, jamais faria com ninguém aquilo que havia sido feito com ele.
E ela disse ainda que, se você é fã do Ali e quer que ele te ligue pra dar um alô, é só mandar o número. Pode ser que ele realmente te ligue pra dizer “oi”.

Outra história magnífica de Hana é a respeito de Myia, uma das filhas ilegítimas de Ali (ele tem duas, Miya e Khaliah). Myia não se parece com Ali e, quando ela era pequena, todo mundo dizia que ela era mentirosa por sustentar que era filha de Ali. Quando soube disso, Ali foi até a escola da menina e ficou o dia todo com ela, assistiu aula com ela, levou-a pra casa e passou o resto do dia, andando com ela pra lá e pra cá.

Outra coisa que me fez rir, foi saber que Ali, pessoalmente, pediu pra que Will Smith fizesse o papel dele no cinema. “Você não é tão bonito quanto eu, mas serve”, Ali disse.

Porém, o que eu achei mais emocionante de tudo foi na abertura da Olimpíada de 1996, quando Ali ficou responsável por acender a tocha olímpica de Atlanta. Mesmo com toda a tremedeira da síndrome de Parkinson, ele foi até lá, mostrou ao mundo todo sua cara, sua doença e, sobretudo, sua coragem em estar diante do mundo e se mostrar do jeito que é – seja ele qual for.

Lembro que quando vi isso, ao som de “Ode to Joy”, de Beethoven, alguém na sala disse “olha como ele treme” e, quando achei que falavam do Ali, falavam de mim, que tava tremendo também, de medo dele não conseguir acender nada.



A idéia sempre foi terminar esse post com as palavras do próprio Ali e, no site oficial dele, achei esse vídeo aqui que vale como um bom final, bem clichêzento, pra essa “Saga Ali” no Fantástica Fábrica de Barulho.

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As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.07




Em 1978, Ali perdeu o título em disputa contra Leon Spinks e, um ano depois, venceu a revanche e, pela primeira vez, alguém era três vezes campeão mundial de boxe na categoria dos pesados.

Ali ainda quis tentar ser tetra, contra Larry Holmes, mas perdeu – pela primeira vez de alguma maneira que não por pontos.
No décimo round (a luta estava prevista pra 15), o corner de Ali jogou a toalha.

Trevor Berbick, contra quem Ali fez (e perdeu) sua última luta, depois ganharia o título mundial, que só perderia para Mike Tyson – e nem demorou tanto tempo assim.

Daí, dá pra ter idéia da longevidade de Ali.

O André Machado, editor do Pânico, tem uma sacada que cai como uma luva neste caso. A gente trabalha na mesma sala e sempre tem alguém contando piada e, também sempre, tem alguém (eu) pra dar aquela estendida na piada.
Estende uma.
Estende duas.
Na terceira, o André pergunta: “Você não assistiu ‘Pelé Eterno’, né?”.
A pessoa costuma não entender o porquê da pergunta, e, então, o André complementa:
“Porque por isso que o Pelé foi o maior de todos. Porque ele soube a hora de parar”.

Muhammad Ali não soube a hora de parar.
A hora certa foi onde eu parei: depois da luta com Joe Frazier, em Manila.
Por amar o que fazia, por precisar do dinheiro, por orgulho ou por puro desconhecimento de causa, Ali se meteu em cada puta roubada.
Uma delas acabou custando tão caro que vale a pena mencionar.
Em 1976, ele viajou pro Japão para lutar contra Antonio Inoki, campeão de wrestling.
Ali achava que ia ser uma brincadeira, mas Inoki não.
Na coletiva, Ali falou pra caralho, disse que o povo do Japão era muito bonito, mas que Inoki era feio e que não gostava de Inoki porque ele falava muito – o que era uma piada, já que Inoue ficou praticamente mudo durante a coletiva toda.
Se, neste ponto, Ali não sacou que estava fodido, haveria ainda uma outra dica: Inoki deu a Ali, como um presente de cortesia, uma simbólica MULETA.

A luta foi patética de se ver.
Porém, Inoki estava certo quanto às muletas.

É uma coisa que, se existe um Deus e se ele sabe o que faz, nunca mais vai haver na face da terra.

Assim que a luta começou, Inoue foi pro chão – intencionalmente – por onde ficou por 2’45’’ de um round de três minutos.
Do chão, ele arregaçou com as pernas de Ali.
Fodeu com elas.
Fodeu GRANDE.
Ali conseguiu acertar seu primeiro soco no sétimo assalto. Na luta toda, se ele acertou meia dúzia de porradas em Inoki, foi muito.
E deve ter sido uma puta coisa chata de se assistir na TV.
Ali ou desviava dos chutes ou ia pras cordas. Levou muitas.
Como era uma luta de exibição, foi declarado empate, embora Inoki tenha ganho na opinião dos juízes.

Quer ver o tanto de bosta que foi?
Vê aqui (e, desculpa, não temos tradução do japonês – e agradeceríamos se tivéssemos)
(e outra coisa: a luta só começa lá pelos 5 minutos, então paciência)



Em 1998, quando Inoki declarou que ia se aposentar, Ali foi até o Japão ver sua luta de despedida.
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26.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.06



Antes da luta no Zaire, Foreman se machucou durante um treino e aquilo adiou a luta por algumas semanas, sem que ninguém pudesse deixar o lugar.
Quando isso rolou, Ali imediatamente propôs que se remarcasse a luta em uma outra data e que trouxessem Joe Frazier de volta.
Isso me passou como um disparate quando vi o documentário.
Joe Frazier?
Por que caralhos Joe Frazier?
Agora, estudando um pouco mais sobre o assunto, descobri que se Ali teve um rival mesmo, daqueles que marcam a vida pra sempre, esse rival foi Joe Frazier.
Eles lutaram três vezes.
Na primeira, Frazier, era o campeão, derrubou Ali no 15º e último assalto e ganhou por pontos.
Na segunda luta, com doze assaltos, nenhum dos dois era campeão e Ali ganhou por pontos.
A terceira veio um ano depois da luta contra Foreman, no Zaire, e, então, Ali era campeão mundial mais uma vez.
Don King, que também havia promovido a luta contra Foreman, levou a luta para as Filipinas, onde o ditador Ferdinand Marcos havia disponibilizado o Metro de Manila para a luta.
(Aqui vai um parêntese por minha conta: legal Ali se importar com as merdas que se faziam com os negros em seu país, mas ele podia ter dito “não” na hora de lutar no Zaire, do ditador Mobutu, e em Manila, de Ferdinand Marcos, não? Aqui, tanto faz. O texto é sobre bolas do Ali e não sobre minhas, bolas)

A ferocidade da rivalidade entre Frazier e Ali partia principalmente de Frazier e não dá pra deixar de dar a ele a sua cota de razão.
Quando Ali ficou sem licença pra lutar, as coisas ficaram realmente difíceis pra ele.
Imagina que ele teve até que fazer uma peça de teatro, num papel ridículo, pra ajudar a pagar as contas?
Quando um lutador de boxe tem que fazer teatro pra pagar as contas é porque a coisa tá REALMENTE feia.
Naquela época, muita gente ajudou ele.
Principalmente Frazier.
Frazier deu uma força desgraçada pra Ali.
Deu grana, ia lá junto ao governo pedir pra que devolvessem a licença pra Ali, porque seria melhor pro esporte e tudo mais que um cara realmente gente boa poderia fazer.

A merda é que Ali é Ali.

Assim que ele conseguiu de volta a licença, qual foi a primeira coisa que ele fez?
Sim.
Ele disse que Frazier não era o campeão legítimo, que era o “campeão dos brancos”, que era feio, que era burro e que era um gorila.
Isso tudo, além, é claro, do clássico-Ali: “pai tomás”.
O que Ali talvez não tenha sacado é que, embora sendo negro, quando ele faz isso com outro negro – sobretudo com um cara legal como Frazier – isso meio que torna legítimo que qualquer um possa fazer a mesma coisa.
É a igualdade nivelada por baixo.
Frazier tinha filhos e os filhos dele eram chamados de “filhotes de gorila” na escola, tiveram que ser transferidos – algumas vezes.
Frazier se sentiu traído.
Sentiu como se Ali estivesse mordendo a mão que o alimentara.
Ali sempre se defendeu dessas acusações dizendo que estava fazendo trabalhando pela promoção do evento, defesa que Frazier refuta, chamando atenção para o fato de que nenhuma luta que é chamada de “A Luta do Século” precisa de promoção adicional.

Opinião é que nem cu.
Todo mundo tem a sua, nem sempre ela tem uma aparência muito boa e tem nego que, uma vez que começa a dar, não quer mais parar.

A minha opinião é que Ali pagou pra sempre o preço dessa luta.

Não dá pra dizer que ele não treinou e nem que não se preparou.
O que dá pra dizer é que ele tinha outras coisas em mente.
Ali estava com o seu segundo casamento em frangalhos e foi pra Manila com a namorada, a modelo Veronica Porsche.
Na lista de prioridades de Ali, Veronica estava no número um, entreter toda a cambada de gente que o acompanhava (o tal “Ali Circus”), era a prioridade número dois e treinar boxe estava apenas num terceiro e remoto lugar.
Não foi só uma cagada de Ali.
Foi uma cagada de toda sua comissão técnica.
Todo mundo considerou que Frazier estaria arrasado depois da sua derrota fragorosa para George Foreman e que o desafiante estaria interessado em embolsar o pagamento e voltar feliz pra casa.
Frazier, no entanto, vinha treinando com uma devoção exemplar e se apresentou diante de Ali no melhor de sua forma. Declarou que não queria o nocaute. Queria arrancar o coração de Ali de dentro do peito.

Frazier era como os Kinks - uma banda que teria sido a melhor banda do mundo, não tivesse tido o azar de ter tido os Beatles como oponentes.
Frazier era forte, agüentava porrada, batia como um pilão industrial e era rápido como o diabo – em questão de segundos, ele encurralava qualquer lutador nas cordas e acabava com ele.
Se havia um cara capaz de fazer frente a Frazier, esse cara era Ali.
E se havia um cara que poderia acabar com Ali, esse cara era Frazier.

Se a primeira luto foi chamada de “Luta do Século”, essa de Manila foi chamada de “Luta da Vida”.
Depois de ver o que houve na luta, o nome “Luta da Vida” fez muito mais sentido.
O mesmo tenebroso sentido que faria se tivesse sido chamada de “Luta da Morte”.

Era um calor da porra naquele lugar.
Dentro da arena, se meus cálculos de conversão de Fahrenheit pra Celsius estiverem corretos, a temperatura ficava entre 55 e 60 graus.
Se essa temperatura pode tornar insuportável a tarefa de dormir, imagina como é pra dois sujeitos se esmurrando até os limites do corpo?

No primeiro assalto, a impressão que os dois deram ao público era que a luta não chegaria ao décimo quinto assalto, tamanha a ferocidade com que os dois se atacavam. Quando o gongo soou, Frazier deu um tapinha na bunda de Ali, como quem diz “se cuida, campeão, porque tem mais”.

E teve.
Teve BEM mais.

Angelo Dundee diz que, num dado momento, Frazier acertou em Ali o golpe mais duro que ele já viu alguém levar.
A cabeça de Ali girou em cima do pescoço como se fosse dar um lopping Linda Blair, mas Ali assimilou.
Ao fim do assalto, Ali ainda tentava provocar Frazier e dizia “disseram pra mim que você estava acabado, Joe” e Frazier respondeu: “Mentiram pra você, campeão. Eles mentiram pra você”.

Frazier comentaria depois que algumas das porradas que ele encaixou em Ali derrubariam até um prédio.

No décimo terceiro round, Ali acertou Frazier tão forte e tão rápido, que o protetor de dentes voou da boca do desafiante e foi cair na terceira fila de espectadores.
Foi naquele assalto que os olhos de Frazier se fecharam e ele voltou para o décimo quarto round sem ver absolutamente nada, lutando apenas com aquilo que Obi Wan Kenobi chamaria de instintos.

Ele foi pra luta mesmo assim e fez de tudo pra derrubar Ali.
Ali, do seu lado, bateu tanto em Frazier que parecia querer esculpir um “caia, por gentileza” na testa dele.

Nenhum
dos dois
caiu.

Quando voltaram para seus cantos no intervalo daquele que seria o último assalto, ambos estavam exauridos.
Ali chegou a pedir pra que Dundee cortasse as suas luvas, pra que ele ganhasse tempo e pudesse se recuperar. Diante da recusa de Dundee em fazê-lo, Ali ameaçou não voltar para a luta.

Eddie Futch, técnico de Frazier, foi quem parou a luta.

O desafiante ficou puto, mas Futch pousou lentamente as mãos em seus ombros, tentou olhar bem no fundo dos olhos do seu pupilo – desistiu e acabou olhando praquela massa de calombos que virara o rosto de Joe Frazier – e disse:
“- Está tudo acabado, filho. Ninguém jamais vai esquecer o que você fez aqui”.

Ali foi declarado vencedor por nocaute técnico, passou mal e desmaiou de cansaço em seguida.

Depois da luta, Ali declararia que jamais se sentiu tão perto da morte e, ao descer do ringue, em uma breve entrevista, exaltou Joe Frazier de modo que não fez com nenhum outro lutador, dando a ele o título de “greatest” – ao seu lado, claro.




"Joe Frazier, I'll tell the world right now, brings out the best in me. I'm gonna tell ya, that's one helluva man, and God bless him. He is the greatest fighter of all times, next to me."
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25.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.05



Como íamos dizendo: a luta entre George Foreman e Muhammad Ali foi, pra muita gente, a maior de todas as exibições de boxe que já se viu.

Os dois lutaram em outubro de 1974, no Zaire, na África, e o mundo todo previa uma derrota de Ali.
Howard Cosell, analista de boxe e um dos grandes entusiastas de Ali, declarou o favoritismo de Foreman ao dizer que Ali não era mais aquele.
Ali prontamente respondeu dizendo: “Você sempre diz isso: 'Muhammad, você não é mais o mesmo homem que era 10 anos atrás'. Bom, eu perguntei pra sua esposa e ela me disse que você não é o mesmo homem que era DOIS anos atrás”.

O fato é que ninguém botava fé em Ali.

Mesmo em seu corner, todo mundo achava que, naquela noite, no Zaire, Ali seria vítima da própria arrogância.
O que aconteceu foi o seguinte: existe um tipo de golpe, que meio uma mistura de jab com um direto, que nenhum lutador jamais ousaria em uma luta desse porte.
O motivo é simples: você tem que ser muito rápido fazendo isso porque esse tipo de golpe deixa sua guarda aberta para um gancho de esquerda que, caso venha de Foreman, pode arrancar sua cabeça fora.

Foi com esse tipo de golpe que Ali atingiu Foreman DOZE vezes no primeiro assalto.

É uma molecagem.
É o tipo de coisa que sujeito precisa saber MUITO pra se meter a fazer.
Tanto que nenhum dos sparrings de Foreman, todos regiamente pagos para emular Ali, pensou em tentar uma coisa dessas.
É como dar um chubaba no Chewbacca: ele vai arrancar seu braço.
Só que, como em luta de boxe é proibido arrancar o braço dos outros, Foreman ficou POSSESSO e foi pra cima de Ali como um trator.

Daí, Ali botou em prática a segunda parte do seu plano.

Foreman tinha um cartel de 40 lutas, com 40 vitórias e 37 delas por nocaute e a grande maioria delas não passou do terceiro assalto. Daí, Ali tirou a teoria de que Foreman talvez não estivesse preparado para ir além do quinto round.
Por isso, ele se retraiu para as cordas, deixou com que Foreman batesse tanto quanto pudesse no seu corpo, metia uns contragolpes de vez em quando e – durante todo o tempo – ficou provocando o campeão, dizendo pra ele coisas como: “Como é, George? Isso é tudo que você tem?”.

No sétimo assalto, Foreman estava exausto e seus golpes não eram mais aqueles do começo da luta. Daí, Ali saiu das cordas e desceu porrada. Foreman voltou parao oitavo round disposto a acabar a luta, mas Ali o fez antes, atraindo o campeão para o centro do ringue e com uma sequência perfeita de golpes, derrubou Foreman, que não levantou mais.



Aqui embaixo tem o vídeo do oitavo assalto da luta.
Pode reparar que Ali derruba Foreman faltando quase dez segundos pro fim do assalto.
Percebe que ele chega a armar um último soco e não solta a mão?
Seria desumano.
Seria desonrado.
Seria desnecessário.



Pra ser “o maior de todos” ele já havia aprendido a perder.
No Zaire, Ali mostrou – de um jeito indiscutível – que sabia ganhar tanto com os punhos quanto com a inteligência.

E, quando Foreman disputou o título mundial mais uma vez, aos 45 anos, Ali decidiu não ir à luta pra não chamar atenção indevida.
“É o momento do George”, disse ele, que tem Foreman ainda hoje como um de seus melhores amigos.
Ou seja: além de tudo, Ali deve ser beta-tester de toda linha George Foreman Grill.
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22.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.04





Em 1964, quando se alistou no exército, Ali foi dispensado porque não sabia escrever direito.
Em 1966, estourou a guerra no Vietnã e, a exemplo do que havia sido feito com Elvis Presley, Ali foi convocado.

Quando soube disso, Ali declarou que não iria lutar – nem fodendo – pelo exército dos EUA e cunhou a histórica frase:
“Não tenho problema nenhum com vietcongues. Nenhum deles nunca me chamou de 'nigger'”.

Ele foi até o comitê de alistamento militar em 1967 só para ouvir o nome “Cassius Clay” ser chamado três vezes sem que ele respondesse.

Foi advertido que chamariam pelo seu nome mais uma vez e que, caso ele se recusasse a atender, ele poderia pegar 5 anos de cadeia e pagar uma multa de dez mil dólares.
Chamaram “Cassius Clay” e ele nem se moveu.

No mesmo dia, a New York State Athletic Commission retirou de Ali o título de campeão mundial, cassou sua licença pra lutar e, logo depois, todas as outras federações de boxe fizeram a mesma coisa.

A coisa era simples: ele poderia ir para guerra, ficar por lá sem fazer nada, numa casa só dele e ter motorista só pra ele, mas era uma questão de princípios.

Põe no google aí e vê o tanto de tumulto racial que rolou no fim da década de 1970, nos EUA (tá, vai: clica aqui, bicho preguiça) .

Quando Ali disse que não iria para a guerra era 1967 e a música que estava em primeiro lugar nas paradas era “The Ballad Of The Green Berets”, uma canção patriótica em honra os boinas verdes.

A mídia sustentava – porque ainda era possível – que a guerra no Vietnã era outra coisa além do que realmente era: uma insensatez sem tamanho.

Um ano depois, assassinaram Martin Luther King.

A guerra era lá, do outro lado do mundo, mas Martin Luther King foi assassinado, baleado, silenciado.
Debaixo do nariz de todo mundo.
E não foi no Vietnã: foi em Memphis.

Não demorou muito pra que a posição de Ali, que foi julgada anti-patriótica no início, passasse a ser a mais patriótica que havia.

Tão logo isso ficou claro, a Suprema Corte tratou logo de devolver a licença de Ali alegando que ela havia sido injustamente cassada.

Para retomar o título foi um pouco mais difícil.

Depois de algumas lutas, Ali pôde enfrentar Joe Frazier, que era o campeão invicto.

Foi uma luta feroz, entre dois pugilistas invictos – ambos campeões mundiais.

Pra que você tenha uma vaga idéia da proporção do evento (carinhosamente apelidado de “Luta do Século”), Frank Sinatra não conseguiu comprar ingressos para a luta e, teve que arrumar, junto a revista Life, uma credencial de fotógrafo e fez o registro das imagens para a publicação.

A luta foi pau a pau até o décimo-quinto assalto – um lutador que vinha de três anos de meio de inatividade contra o campeão mundial dos pesos pesados – até que um gancho de esquerda, duro e limpo, derrubou Ali e definiu o combate em favor de Frazier.



Pela primeira vez, aquele que se dizia “o maior de todos” foi obrigado a lidar com a derrota.

Ali fez isso com dignidade.

Assumiu a derrota sem desculpas e ficou imóvel, com uma expressão aterrorizante.

Era assim que ele estava, no vestiário, quando Diana Ross, inconsolável, chorava em seu colo, sem botar fé que o maior de todos havia sido derrubado.

Deu a impressão de que ninguém acreditou naquela derrota. Só de uma pessoa: o próprio Ali.

Ele ruminou aquela derrota sem a menor autopiedade e tirou dela tudo que pode.

Depois disso, ele ainda sofreu outra derrota, contra Ken Norton, e essa, literalmente, não foi fácil de engolir.

Acho que foi no segundo assalto que Norton quebrou o maxilar de Ali.

Seu técnico, Dundee, quis pedir o fim da luta, mas Ali disse que não.
“Eu consigo derrubar esse vagabundo”, disse ao técnico.

A luta se arrastou por doze assaltos e, no fim, em decisão dividida, o júri deu vitória à Norton.

Depois da luta, Ali concedeu entrevista mesmo sem poder abrir a boca e os médicos que o examinaram consideraram impossível que qualquer ser humano agüentasse lutar os dez assaltos que Ali lutou no estado físico em que ele lutou.

Percebe que é fácil ser “o maior” ganhando, mas que é foda pra caralho continuar sendo quando se está perdendo?

Ali fez revanche contra os dois e ganhou dos dois, mas não ganhou o título.

O título era de George Foreman que derrotara não só Joe Frazier, como também Ken Norton – ambos no segundo round.

Frazier foi massacrado: Foreman o derrubou seis vezes em quadro minutos e meio.

A luta entre George Foreman e Muhammad Ali foi, pra muita gente, a maior de todas as exibições de boxe que já se viu.

Mas ela é o tema da próxima parte.
Se você quiser a coisa completa, procure o documentário "Quando Éramos Reis", de Leon Gast, e, aí sim, você vai saber o que foi aquilo.
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As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.03





É curioso dizer que, quando Muhammad Ali foi campeão olímpico, Floyd Patterson era o campeão mundial (perdeu o título pra Sonny Liston).
Os dois se encontraram durante a prova e Ali disse a Patterson: “Ei, Floyd! Tenho acompanhado você. Um dia ainda vou te dar uma surra. Não esquece que eu sou o melhor!”.

Imagina um campeão ouvindo isso de um amador.

Seis anos depois, Patterson dizia que ia ganhar o título de campeão “de volta para a América”, que ia fazer uma luta em nome do cristianismo.
E o campeão contra quem lutaria era justamente aquele amador bocudo da Olimpíada.
Ali, convertido ao islamismo, não gostou nada daquilo de "trazer o título de volta para a América" e, antes da luta, Ali disse que ia bater tanto em Patterson que ele ia precisar usar uma calçadeira pra colocar um chapéu na cabeça.

Fato foi que Ali, de fato, surrou Patterson e declarou depois: “Eu sou a América. Sou a parte que você não admite, mas acostume-se comigo. Negro, confiante, arrogante – é o meu nome e não o seu. É a minha religião e não a sua. São as minhas conquistas e não as suas. Acostumem-se comigo”.

Aquele era o jeito que Ali tinha para dizer: “não discutam religião comigo”.

Não é bom falar muito da luta entre Ali e Floyd Patterson, porque o que ele fez com Patterson, ele também fez – e fez bem pior – com Ernie Terrel.

Ao mudar de nome, Muhammad Ali alegou que “Cassius Clay” era seu nome de escravo.
Terrell fez a bobagem de insistir em chamar Ali de Clay.
Insistiu, também, em não pedir desculpas pelo engano.
Ali, então, surrou Terrell de tal maneira que ele não caísse, pra que continuasse em pé e continuasse apanhando.
Por QUINZE rounds.
No meio da luta, em pé no ringue, Ali desafiava Terrell a repetir o nome dele, gritando “What's my name?” e o chamava de “pai tomás” – um negro submisso aos brancos.

Evidentemente, chamaram a atenção de Ali por causa disso.

Ele respondeu da seguinte maneira: “Eu estou surrando um cara em cima do ringue e vocês se preocupam com o que eu digo pra ele?”

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21.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.02





Logo depois da luta contra Sonny Liston, Ali se declarou convertido muçulmano, juntou-se ao grupo Nação do Islã – um grupo negro do qual Malcolm X fazia parte e que não era muito a fim de integração racial.
Foi aí que ele adotou o nome de Muhammad Ali.
Isso deixou alguns de seus fãs meio putos.
Então, ele concedeu a Sonny Liston o direito da revanche.
A revanche dos dois tem aquela cena que virou pôster no mundo todo, em que Ali derruba Liston logo no primeiro assalto e fica rugindo, com o ex-campeão aos seus pés, dizendo: “get up and fight, sucker!”.
Dá pra ver a luta toda aqui e nem demora muito.

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As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.01





Tempo atrás me veio a idéia de jerico de escrever sobre bolas.
O primeiro texto que escrevi sobre o assunto me dá vergonha de ler – quanto mais de publicar.
O que aprendi com ele, vale repetir: nunca escreva sobre as suas bolas.

Escreva sobre as bolas dos outros, mas, sobre as suas, nem pensar.

Daí, foi ver sobre as bolas de quem falar.
Não precisou procurar muito.
Assim que um velho amigo meu conseguiu passar pra DVD a minha VHS de “Quando Éramos Reis”, um documentário de Leon Gast sobre Muhammad Ali e a luta dele contra George Foreman, ficou claro que as bolas seriam dele.
Campeão mundial dos pesos pesados três vezes e um ativista político bem incomum – aquele tipo que sobrevive à própria biografia.

A merda é: o que é que eu possa dizer sobre Muhammad Ali que ele mesmo já não tenha dito – e melhor que eu?

Primeiro: você precisa ter bolas pra gritar pra todo mundo “eu sou o maior de todos” antes de ser, de fato, o maior de todos.
Se você fosse técnico de boxe e um maluco telefonasse pra você dois anos antes da olimpíada e dissesse “você tem que me treinar porque eu sou o maior de todos e vou ser o novo campeão olímpico”, o que você faria?
Angelo Dundee, achou que aquele tal Cassius Clay era louco.
Dois anos depois, Ali (que então usava o nome de batismo Cassius Clay) ganhou medalha de ouro na olimpíada de Roma. (Tem um vídeo aqui)
Medalha essa que – verdade ou não – suas bolas fizeram com que ele a jogasse no rio Ohio, depois de ter sido barrado em um restaurante que só permitia entrada de brancos.

Ali nasceu no pior lugar dos EUA para se ser negro – Louisville, Kentucky, lar da KKK.
Nascer negro naquele lugar e naquela época já é o bastante pra imortalizar suas bolas pra sempre.
Ali, no entanto, tinha outros planos pra elas.

Em 1964, ele enfrentou o campeão dos pesos pesados, Sonny Liston, como desafiante. Já na pesagem, Ali causou tanto, dizendo que ia derrubar Sonny no oitavo round, que ia flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha que as mãos de Sonny não iam conseguir atingir o que seus olhos não poderiam ver. Porque ele, Ali, era mais jovem, mais rápido e mais bonito que o campeão e, na opinião do desafiante, pelo menos bonito um campeão deveria ser.
Entenda isso: haver um negro na TV, em 1964, gritando pro mundo que ser negro é bonito fez de Ali tão importante quanto Malcolm X e Martin Luther King.
Mesmo assim, muita gente achou que a postura dele era pra disfarçar o nervosismo e as apostas eram em 7 contra 1, em favor de Sonny. Ali dizia que ia derrubar Sonny no oitavo assalto e que, quem tivesse amor pelo próprio dinheiro, deveria apostar em um novo campeão.

"Sonny Liston is nothing. The man can't talk. The man can't fight. The man needs talking lessons. The man needs boxing lessons. And since he's gonna fight me, he needs falling lessons"

O show da pesagem, dá pra ver aqui.
Porém, o melhor mesmo foi a luta.

Nos primeiros assaltos, o problema de Liston ficou bem claro.
Foi quando ele percebeu que era sério – ele não conseguia acertar Ali.
Ele tentou, de todo jeito, usar o seu golpe limpo mais mortal de todos, mas, quando soltava a porrada, Ali já não estava mais lá.
Liston apelou para o seu golpe sujo favorito que, segundo historiadores de boxe, jamais havia falhado.
Ele colocava uma substância cáustica em suas luvas e ia pra luta.
Quando as luvas atingiam o rosto do outro lutador, por mais fraco que fosse o golpe, aquela solução espirrava nos olhos do adversário e ele ficava temporariamente cego.
Era tempo o bastante pra que Linston finalizasse a vítima.

Não foi assim com Ali.

Mesmo cego, o desafiante fez das tripas coração pra se defender.
O quarto round foi todo de Liston, com Ali fugindo, tentando entender o que estava acontecendo.
No intervalo, Angelo Dundee sacou o que havia e, no meio do quinto round, Ali estava quase bom mais uma vez e, no sexto round, surrou Sonny.

Coloque-se no lugar de Sonny Liston: se no primeiro assalto, descansado, você já não conseguia atingir o cara, você lançou mão do seu golpe mais sujo e ele não funcionou... e agora?
Tem um sétimo round todo pra lutar e Ali prometeu que ia te derrubar no oitavo.

O que você faz agora?

Sonny fez o que fez: não levantou do seu banco ao fim do sétimo round.

Ali, arrastando todos os que o abraçavam em cima do ringue, correu para as cordas e berrou, com toda a força dos seus pulmões: “
Comam as suas palavras: eu sou o MAIOR! I SHOOK UP THE WORLD!”.



“I'm king of the world! I'm 22 years old and ain’t got a mark on my face, I'm pretty, I easily survived six rounds with that ugly bear, because I am the greatest."
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