26.5.09

As bolas de Ali (divididas em várias partes) Pt.06



Antes da luta no Zaire, Foreman se machucou durante um treino e aquilo adiou a luta por algumas semanas, sem que ninguém pudesse deixar o lugar.
Quando isso rolou, Ali imediatamente propôs que se remarcasse a luta em uma outra data e que trouxessem Joe Frazier de volta.
Isso me passou como um disparate quando vi o documentário.
Joe Frazier?
Por que caralhos Joe Frazier?
Agora, estudando um pouco mais sobre o assunto, descobri que se Ali teve um rival mesmo, daqueles que marcam a vida pra sempre, esse rival foi Joe Frazier.
Eles lutaram três vezes.
Na primeira, Frazier, era o campeão, derrubou Ali no 15º e último assalto e ganhou por pontos.
Na segunda luta, com doze assaltos, nenhum dos dois era campeão e Ali ganhou por pontos.
A terceira veio um ano depois da luta contra Foreman, no Zaire, e, então, Ali era campeão mundial mais uma vez.
Don King, que também havia promovido a luta contra Foreman, levou a luta para as Filipinas, onde o ditador Ferdinand Marcos havia disponibilizado o Metro de Manila para a luta.
(Aqui vai um parêntese por minha conta: legal Ali se importar com as merdas que se faziam com os negros em seu país, mas ele podia ter dito “não” na hora de lutar no Zaire, do ditador Mobutu, e em Manila, de Ferdinand Marcos, não? Aqui, tanto faz. O texto é sobre bolas do Ali e não sobre minhas, bolas)

A ferocidade da rivalidade entre Frazier e Ali partia principalmente de Frazier e não dá pra deixar de dar a ele a sua cota de razão.
Quando Ali ficou sem licença pra lutar, as coisas ficaram realmente difíceis pra ele.
Imagina que ele teve até que fazer uma peça de teatro, num papel ridículo, pra ajudar a pagar as contas?
Quando um lutador de boxe tem que fazer teatro pra pagar as contas é porque a coisa tá REALMENTE feia.
Naquela época, muita gente ajudou ele.
Principalmente Frazier.
Frazier deu uma força desgraçada pra Ali.
Deu grana, ia lá junto ao governo pedir pra que devolvessem a licença pra Ali, porque seria melhor pro esporte e tudo mais que um cara realmente gente boa poderia fazer.

A merda é que Ali é Ali.

Assim que ele conseguiu de volta a licença, qual foi a primeira coisa que ele fez?
Sim.
Ele disse que Frazier não era o campeão legítimo, que era o “campeão dos brancos”, que era feio, que era burro e que era um gorila.
Isso tudo, além, é claro, do clássico-Ali: “pai tomás”.
O que Ali talvez não tenha sacado é que, embora sendo negro, quando ele faz isso com outro negro – sobretudo com um cara legal como Frazier – isso meio que torna legítimo que qualquer um possa fazer a mesma coisa.
É a igualdade nivelada por baixo.
Frazier tinha filhos e os filhos dele eram chamados de “filhotes de gorila” na escola, tiveram que ser transferidos – algumas vezes.
Frazier se sentiu traído.
Sentiu como se Ali estivesse mordendo a mão que o alimentara.
Ali sempre se defendeu dessas acusações dizendo que estava fazendo trabalhando pela promoção do evento, defesa que Frazier refuta, chamando atenção para o fato de que nenhuma luta que é chamada de “A Luta do Século” precisa de promoção adicional.

Opinião é que nem cu.
Todo mundo tem a sua, nem sempre ela tem uma aparência muito boa e tem nego que, uma vez que começa a dar, não quer mais parar.

A minha opinião é que Ali pagou pra sempre o preço dessa luta.

Não dá pra dizer que ele não treinou e nem que não se preparou.
O que dá pra dizer é que ele tinha outras coisas em mente.
Ali estava com o seu segundo casamento em frangalhos e foi pra Manila com a namorada, a modelo Veronica Porsche.
Na lista de prioridades de Ali, Veronica estava no número um, entreter toda a cambada de gente que o acompanhava (o tal “Ali Circus”), era a prioridade número dois e treinar boxe estava apenas num terceiro e remoto lugar.
Não foi só uma cagada de Ali.
Foi uma cagada de toda sua comissão técnica.
Todo mundo considerou que Frazier estaria arrasado depois da sua derrota fragorosa para George Foreman e que o desafiante estaria interessado em embolsar o pagamento e voltar feliz pra casa.
Frazier, no entanto, vinha treinando com uma devoção exemplar e se apresentou diante de Ali no melhor de sua forma. Declarou que não queria o nocaute. Queria arrancar o coração de Ali de dentro do peito.

Frazier era como os Kinks - uma banda que teria sido a melhor banda do mundo, não tivesse tido o azar de ter tido os Beatles como oponentes.
Frazier era forte, agüentava porrada, batia como um pilão industrial e era rápido como o diabo – em questão de segundos, ele encurralava qualquer lutador nas cordas e acabava com ele.
Se havia um cara capaz de fazer frente a Frazier, esse cara era Ali.
E se havia um cara que poderia acabar com Ali, esse cara era Frazier.

Se a primeira luto foi chamada de “Luta do Século”, essa de Manila foi chamada de “Luta da Vida”.
Depois de ver o que houve na luta, o nome “Luta da Vida” fez muito mais sentido.
O mesmo tenebroso sentido que faria se tivesse sido chamada de “Luta da Morte”.

Era um calor da porra naquele lugar.
Dentro da arena, se meus cálculos de conversão de Fahrenheit pra Celsius estiverem corretos, a temperatura ficava entre 55 e 60 graus.
Se essa temperatura pode tornar insuportável a tarefa de dormir, imagina como é pra dois sujeitos se esmurrando até os limites do corpo?

No primeiro assalto, a impressão que os dois deram ao público era que a luta não chegaria ao décimo quinto assalto, tamanha a ferocidade com que os dois se atacavam. Quando o gongo soou, Frazier deu um tapinha na bunda de Ali, como quem diz “se cuida, campeão, porque tem mais”.

E teve.
Teve BEM mais.

Angelo Dundee diz que, num dado momento, Frazier acertou em Ali o golpe mais duro que ele já viu alguém levar.
A cabeça de Ali girou em cima do pescoço como se fosse dar um lopping Linda Blair, mas Ali assimilou.
Ao fim do assalto, Ali ainda tentava provocar Frazier e dizia “disseram pra mim que você estava acabado, Joe” e Frazier respondeu: “Mentiram pra você, campeão. Eles mentiram pra você”.

Frazier comentaria depois que algumas das porradas que ele encaixou em Ali derrubariam até um prédio.

No décimo terceiro round, Ali acertou Frazier tão forte e tão rápido, que o protetor de dentes voou da boca do desafiante e foi cair na terceira fila de espectadores.
Foi naquele assalto que os olhos de Frazier se fecharam e ele voltou para o décimo quarto round sem ver absolutamente nada, lutando apenas com aquilo que Obi Wan Kenobi chamaria de instintos.

Ele foi pra luta mesmo assim e fez de tudo pra derrubar Ali.
Ali, do seu lado, bateu tanto em Frazier que parecia querer esculpir um “caia, por gentileza” na testa dele.

Nenhum
dos dois
caiu.

Quando voltaram para seus cantos no intervalo daquele que seria o último assalto, ambos estavam exauridos.
Ali chegou a pedir pra que Dundee cortasse as suas luvas, pra que ele ganhasse tempo e pudesse se recuperar. Diante da recusa de Dundee em fazê-lo, Ali ameaçou não voltar para a luta.

Eddie Futch, técnico de Frazier, foi quem parou a luta.

O desafiante ficou puto, mas Futch pousou lentamente as mãos em seus ombros, tentou olhar bem no fundo dos olhos do seu pupilo – desistiu e acabou olhando praquela massa de calombos que virara o rosto de Joe Frazier – e disse:
“- Está tudo acabado, filho. Ninguém jamais vai esquecer o que você fez aqui”.

Ali foi declarado vencedor por nocaute técnico, passou mal e desmaiou de cansaço em seguida.

Depois da luta, Ali declararia que jamais se sentiu tão perto da morte e, ao descer do ringue, em uma breve entrevista, exaltou Joe Frazier de modo que não fez com nenhum outro lutador, dando a ele o título de “greatest” – ao seu lado, claro.




"Joe Frazier, I'll tell the world right now, brings out the best in me. I'm gonna tell ya, that's one helluva man, and God bless him. He is the greatest fighter of all times, next to me."

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