11.5.07

Capítulo 1 - A descida ao Inferno

Eu ia descendo a Augusta, tinha uma puta medonha coçando um piercing dourado num umbigo sujo quando eu me dei conta que ia passar em frente ao Inferno. Como eu sabia que o Undershower ia tocar lá, resolvi fazer uma visita e comunicar que ia fazer uma matéria sobre a festa da noite, quisessem eles ou não.
Tinha uma banda passando o som e o pessoal de lá me deu uma filipeta e disse pra eu ligar de volta lá pelas 23h30 e falar com a Nonô.
Volto pra casa, tomo um banho, faço uma garrafa de café e tomo ela toda.
Ligo e falo com a Nonô. Ela atende, eu conto a história, ela pergunta se eu vou tirar foto, eu digo que sim, ela pede pra eu tirar de todas as bandas, eu topo, ela topa e é hora de botar roupa de ir pro Inferno.
Chego lá um pouco antes da hora e fico do outro lado da rua, tentando ouvir as promessas que a noite murmura e que o dia há de apagar.
Diz-se que é o ritual que faz a vivência e eu digo que nunca me arrependi de ficar olhando a porta do lugar onde vou entrar. Eu dou apelidos pras pessoas com quem possivelmente nem vou falar, reparo em gestos, em casais, em saias mais curtas, em saias mais compridas, em beijos, em pessoas. Parece que alguém jogou um quebra cabeças pra cima e você já está tentando montar, mas as peças ainda estão no ar.
É bonito quando você vai percebendo que nada é por acaso.
É uma sensação bem clara essa de estar em um lugar, olhando pra ele, e sacar que daqui cinco ou dez anos, as pessoas vão lembrar dele como o melhor tempo de sua vida.
Existe uma eletricidade em lugares assim e, depois, quando você finalmente entra, você imagina que realmente tem sorte de estar ali e que alguma coisa memorável pode acontecer a qualquer momento.
Muito dessa sensação, é bom que eu admita, vem da menina que te recebe na porta. Ela é tão linda que meio sorriso dela com aqueles olhos encaixados nos seus vale pra te deixar meio besta por meiorinha. A Nonô disse o nome dela. É com ela que eu tenho que falar pra entrar.
Quando ela me olha nos olhos, eu gaguejo que sou o Fernando, ela sorri e diz pra outra menina do balcão: "Ele é VIP da Nonô".
VIP é o cara que faz aquele sorriso se abrir.
Eu entro.
Logo de cara, já encontro o Flávio, batera dos Forgotten Boys, meu antigo vizinho na Pompéia. A gente se cumprimenta e ele, como bom forgotten boy que é, só vai lembrar de onde mesmo que ele me conhecia lá pelo meio da noite.
A gente se conhece porque quando eu estava indo entregar uma matéria sobre o show dos Forgotten Boys no SESC Pompéia, encontrei com o Flávio no ponto do Lapa-R e disse "cara, você não morre mais".
Inclusive, numa dessas vezes que a gente se encontrou no Lapa-R, foi justamente quando a Nonô ligou pra ele, chamando pra dar som no Inferno pela primeira vez, eu acho.
O Inferno, por dentro, é do caralho.
A decoração é toda carmim com uns focos de pele de onça aqui e ali. É o tipo de lugar onde Tom Jones ia se sentir à vontade pra botar seu colant de lantejoulas púrpuras e cantar "What's New Pussycat?" até alguémk tomar o microfone.
Só que, pelo som ambiente, é melhor esperar os New York Dolls.
Tem John Waters no telão o tempo todo. Se o Inferno fosse um filme, seria "Wild At Heart", do David Lynch.
Por último, o melhor: tem uma gostosa dançando de biquíni em cima de cada canto do balcão do bar. Prometi pra mim mesmo que, se uma delas fosse pro meio, eu ia pedir uma cerveja por entre as pernas dela e brindar à saúde.
À toda aquela saúde.

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