
cheguei em casa, enchi aquela caneca, a mais velha de todas, com água e nescafé – porque uma vez você me disse que era bom sempre ter nescafé em casa, pras horas em que não se tem café.
programei um minuto e fui olhar pela janela.
o mesmo mundo – agora novo.
olhei pra mim, na aliança.
meu rosto redondo e dourado, feliz.
acendi um cigarro.
o microondas apitou e eu trouxe a caneca comigo.
no caminho, peguei o celular.
my morning elegance.
“acabei de chegar em casa, beibe.
To na janela vendo o sol nascer,
ouvindo os pássaros de são paulo
pela primeira vez, com aliança.
Bom dia, noiva.
Teu noivo
(este seu eu ^^)
ama MUITO você.”
enviei
celular vibrou dizendo “mandei”.
e depois virou dizendo “acorda”.
era o despertador.
parece sonho,
mas eu tô acordado.
o computador finalmente liga
a claro finalmente conecta
e o firefox finalmente abre
não tem mais a foto da Joice menina de avatar na página dela.
abre a foto da joice mulher.
minha mulher.
vou ver o que ela diz e ela postou uma foto da gente com as alianças
e, abaixo, um link pro último texto sem aliança, aquele que fala das alianças.
ela disse: “Pra quem leu o texto do @tucori http://bit.ly/7OgWE, aqui estão as alianças (L)”
e eu disse: “a cor roxa, as listras, seus pés, o poste que serviu de alvo pras bolinhas e o começo do lugar por onde o gigante vinha - onde, uma vez, inundou tudo. você, eu, o universo e tudo mais. amo você, noiva. (L)²²²”
e depois: “acima, meu primeiro post/tweet, com aliança ^^”
e depois, ainda: “abaixo, noivo. abaixo.”
(alá. o errado ficou certo)
bom dia, noiva.
amo você e essa vida que você me deu, vida.
bom dia, noiva
26.10.09
Postado por Fernando T às 6:58 AM 1 comentários
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comprei as alianças, beibe
23.10.09

elas não são as mais preciosas que existem, não são nem as mais bonitas e talvez nem fiquei bem nos nossos dedos.
isso não tem a menor importância.
não exista símbolo que valha tal significado.
o mensageiro não é importante.
você sabe de onde elas vieram, você sabe por que ela vieram de onde vieram e sabe, sobretudo, o significado de cada coisinhas que fazem delas NOSSAS alianças e não simplesmente... alianças.
Fiquei inseguro às vezes, te confesso.
Fiquei mil vezes inseguro por causa do valor que eu já vi gente dar pra isso. É que cada um tem seus próprios preços e seus próprios valores pra colocar nas coisas. È como o Louback disse no texto hoje, o texto dele que eu achei do caralho. É preciso haver cumplicidade.
Achei lindo o texto dele e, quando você ler, você vai entender o porquê. Provavelmente você vai lembrar do que eu te disse sobre aquela pichação de “mais amor” que tem espalhada por SP toda. Minha vontade é dizer “obrigado. tô satisfeito”, mas cito aqui as últimas palavras no nobre doutor Spock: “as necessidades de muitos sobrepõe-se às necessidades de poucos”.
Fico feliz por que cumplicidade não é uma coisa que a gente precise encontrar. Eu tô há meses tentando escrever um livro, você sabe. Não consigo. Vou escrevendo devagar porque eu quero heróis que sejam cúmplices e, por mais que eu me esforce pra fazer com que eles sejam no livro, e eles sejamos nós, a gente é muito mais sem nem precisar olhar um pro outro.
Fico feliz que tenha alguém falando disso, porque é vital falar disso, e fico ainda mais feliz que seja tão bem dito como é dito pelo Louback. Ele provavelmente vai ficar orgulhoso em saber que eu chorei da primeira até a última linha – porque ele começa falando de tênis vermelho e termina dizendo que é “nós X mundo” e, nessa briga, na boa: pau no cu do mundo.
deixa eu te contar de hoje.
fui gravar nossos nomes nas alianças.
não sabia como fazer isso, onde fazer isso. achava que só o lugar que vende a aliança é que grava a aliança quando você compra a aliança – e compra lá. (percebe: eu tô gastando a palavra “aliança”, mas é que a caixinha azul delas tá aqui, aberta e o tempo todo eu vou lá olhar – do verbo “botar a mão” – pra elas. a repetição é um símbolo pra essa ânsia. você entendeu)
tava aqui buscando no google um lugar onde se grava nome em aliança.
achei um cara perguntando se alguém sabe escrever em mordor porque ele quer gravar o nome dele em mordor na aliança (alá). achei uma página tosca que dizia “veja aliança com o nome JOYCE gravado nela” e pensei – porra! – desenha mais, deus! peguei o endereço da casa das alianças na avenida são joão, botei a caixinha no bolso e o mp3 no ouvido, dei play no johnny cash e saí pra rua – vestido de preto.
quem diz que o google sabe tudo nunca teve a idéia de perguntar nada pra algum funcionário de banca na praça da república.
o cara me disse: “você entra nessa rua e vai reto. tem uma galeria lá no fim. lá tem um cara que faz isso pra você”.
a rua que ele apontava pra mim era a mesma rua em que a gente foi andando na primeira vez que você veio pra cá e a gente parecia aquela capa do “freewheelin’” do bob dylan.
segui as coordenadas e achei, sem problemas, o mesquita.
o mesquita tem o processo dele pra gravar em aliança. eu devia ter anotado o nome, mas esqueci. ele não escreve à mão. ele usa uma máquina manual. o mesquita disse pra mim que, se fosse pra escrever à mão, ele ficaria contente em indicar um amigo dele que faz isso até em aliança de anão.
pensei assim: talvez não fique tão bonito, mas é em letra de forma e, se eu pudesse, gravava em arial unicode ms, normal, tamanho 14. Preta na sua, roxa na minha. E botaria um ^^ nas duas.
fechado: vai em letra de forma.
o mesquita – eu sei o nome dele porque a loja dele chama “mesquita” – é cheio de pergunta. acho que ele faz isso com todo mundo que vai lá comprar aliança ou gravar nome em alianças (tá vendo?).
ele me encheu de pergunta.
fui deixando ele me dissecar pra ver o que ele ia conseguir tirar de dentro de mim. você sabe: isso é uma espécie de autobiografia em duas vias. ele põe a verdade dele em xeque e tenta por a minha também. no fim, a gente vê quem foi que tocou quem, agradece e vai embora.
não gravei os nomes da gente.
gravei outra coisa e tô morrendo de vontade de te contar o que foi, mas não vou não. vou fazer do jeito que eu faço, que é te dar uma dica difícil e deixar você praticamente saber, sem ter certeza absoluta.
são seis palavras – três minhas, três suas – em cada uma delas. seis palavras da letra de uma música que é um símbolo também. três pra mim, três pra você. essas palavras vão ficar no fim de nossas cicatrizes.
pronto.
entreguei.
então: são essas palavras e a data de 24/10/09.
isso quer dizer o seguinte: eu vou chegar aí no dia 23 e só vou deixar você ver no dia 24. por sorte, eu vou chegar às 23h30 do dia 23, então você só vai precisar esperar meia hora. você pode até tentar usar o argumento do “mas nós estamos no horário de verão”. use.
eu aceito.
aliás: eu preciso que você faça isso – ou eu mesmo faço.
o mesquita ficou com medo que não coubesse. na minha coube direitinho. na sua, que é menor, ele tinha as dúvidas dele.
falei pra ele “toca em frente que cabe”.
ele não sabia como eu sabia – nem eu sabia como eu sabia – mas eu sabia.
enquanto ele escrevia na sua, eu fritava o peixe e olhava o gato. ficava olhando a minha aliança e prestando atenção se ele tava escrevendo certo na sua. Ele agarrou no primeiro zero da data, o zero do 10.
Disse pra ele: “agora é dar espaço, botar outro zero e um nove”.
Ele me olhava com cara de o.0.
O Mesquita me disse que a imensa maioria – aquela que equivale à praticamente todo mundo – de gente que vem procurar por ele é de casal que se conheceu pela internet. Tinha alguma coisa nisso que tava deixando ele intrigado.
O Mesquita é um cara legal. Você vê isso logo que conversa com ele. Ele não tenta te enganar, não quer arrancar seu dinheiro e o que você quer fazer é mais importante pra ele que o que ele pensa em fazer. Ele simples assim: e é um cara legal.
A conversa com ele tava indo tão franca (eu resumi aqui - ainda tem coisa que eu vou te contar depois) que ele não viu mal nenhum em me perguntar: “por que você escolheu conhecer uma pessoa pela internet?”
expliquei pra ele o seguinte: “não é que eu ‘escolhi’ conhecer pela internet. a gente tem meios e meios de conhecer pessoas. internet é só um deles”. minha impressão de quando te conheci ainda é a mesma de “por onde você andou?”. acho que a gente poderia ter se conhecido em outra vida, mesmo que nós dois fôssemos gatos, e, ainda assim, a gente, nas palavras imortais de walt whitman “soaria nosso urro barbárico sobre os telhados do mundo”.
daí, ele terminou a sua aliança e ficou um tempo irritante olhando pra ela, com uma cara de encafifado, que fazia minha ansiedade borbulhar em bile.
ele me deu a aliança.
percebi que uma letra “E” tinha saído esquisita.
ela tinha saído deitada.
parecia um M.
mostrei pro mesquita , ele achou isso também e disse que ia tentar arrumar.
enquanto ele botava a aliança de novo na máquina, eu fiquei pensando.
ele dizia que ia tentar corrigir, mas...
pedi pra ele deixar eu olhar de novo.
não era um M que o “E” deitado parecia.
parecia...
parecia um...
parecia um... ^^
você vai ver: é igual.
se eu tivesse pedido pra ele botar um ^^ na aliança, ele ia dizer que não é possível.
a gente faz umas coisas tão impossíveis quando a gente não sabe que elas são impossíveis, né?
disse pra ele que eu queria daquele jeito mesmo.
“deixa assim, caramada”.
a gente tem que saber reconhecer os acidentes felizes.
daí, chegou um cara e ficou plantado atrás de mim. não parecia cliente. parecia o cara com quem o mesquita costumava tomar cerveja depois do trabalho.
daí, ele me estendeu a mão preta de sujeira e calejada de trampar duro e me disse “rapaz, foi muito bom conversar com você. obrigado pelo papo”
eu me enganei. não era o tipo de conversa na qual uma das pessoas terminava agradecendo. era o tipo de conversa em que DUAS pessoas terminam agradecendo.
e eu agradeci.
botei o fone de ouvido e tocava “man in black”, pra me lembrar porque é que eu me visto de preto.
daí, quando eu passei por trás do caetano de campos, no caminho pra casa, tava tocando “in my life”.
e na parte que diz “and in my life... i love you more” eu beijei o nó do dedo da mão esquerda em nome de tudo que me é sagrado – ou seja: você.
Postado por Fernando T às 7:04 AM 1 comentários
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poltrona 42
22.10.09
onde ela está não há sombra de deus.
entretanto, deus está em todos os lugares
justamente porque ela também está
nas músicas de johnny cash
no perfume da lavanda
na cor roxa
no chocolate com menta
no chocolate sem menta
no pistache
no queixo
no flango
no damaishco
no josé, do drummond
no josé - cuervo, ouro
no sorvete de leite de soja
no ônibus sabino subino de ponta cabeça
no dia de cosme e damião
no talento com passas
no acidente do batone
no batone - em geral
em iemanjá saindo do mar
num esquimó com gorro felpudo
nas listas cinza e branco, branco e preto, branco e preto, branco e preto, branco e preto, branco e preto, branco e preto,branco e preto, branco e preto, branco e preto,branco e preto, branco e preto, branco e preto,branco e preto, branco e preto, branco e preto,branco e preto, branco e preto, branco e preto,branco e preto, branco e preto, branco e preto, vermelho, vermelho.
em borboletas pousadas no vidro que uma pedrada rachou
na lycosa esmagada do lado da porta de entrada
em dois índios
no castelinho
na costelinha
na bolinha
na buzunguinha
na salutaris
na neve no teto do banheiro
no cabelo da sheila da caverna do dragão,
no corinthians e no flamengo
nas sunday morning songs
nas love handles
num anjo pornográfico
num ruy castro, claro
naquela música dos carpenters que o sonic youth regravou
em silent hill
na neblina
nas montanhas
no ruço que desce
em balões que sobem
no odair josé
na rodovária
no amanhecer
nos escravos de jó
nos sinos da consolação
num all star vermelho
nas spatódeas que me espirraram na cara
no caminho pra liberdade
na música de mistery, alaska
na irlanda
em new orleans
na mãe de lestat
nos totens que caem e quebram
no entei e no hentai
no mishto
no x-bacon
nas paineiras
nos novos baianos
no velório de michael jackson
no sotaque carioca
no "meu" paulista
no "meu" possessivo
no número 42
nos filmes que a gente deixou pela metade
na caixa de blues
em sobrancelhas circunflexas
num shiu
num lick
num wuub
em tudo
(inclusive nas coisas
que eu vou lembrar
depois de ter publicado)
ela é a desculpa que deus dá
pra poder se dizer onipresente.
Postado por Fernando T às 11:13 PM 0 comentários
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At Last (ou “Como você, um disco de Etta James e os pés de Muhammad Ali salvaram a minha pele”)
14.10.09

Tem um disco da Etta James que se chama “At Last!”.
É de 1960 e tem sido minha obsessão mais recente.
Baixei esse disco num dia bem atípico.
Tinha uma música nele que eu queria e foi com ela que tudo começou.
Era sexta-feira e eu estava usando coturnos.
Não usava fazia um puta tempo e, depois de ter passado um puta frio nos pés na quinta, porque minhas meias molharam com a chuva, eu não queria dar sopa – nem pro azar nem pra prováveis frieiras.
“Trust in me” era a música da minha obsessão.
Little did he know.
Na real, minha obsessão–mor tem sido outra e já faz tempo.
Chama-se Joice Viana Mendes.
Em menos de 24 horas, a gente estaria junto e isso me maravilhava ainda mais que o disco.
Isso fazia com que o disco – e o universo e tudo mais – fizesse sentido.
Desde o começo da semana, eu vinha andando na rua com pés de Muhammad Ali.
Essa era outra de minhas obsessões menores.
Viciei num jogo de Playstation 2, o Fight Night.
Adotei o Ali como avatar e já faz um tempo que venho construindo minha carreira com ele. Esse dias, beirando as raias do ridículo, depois de ganhar honrosamente de Roy Jones Junior (Jones Junior – nome de pugilista), comemorei a vitória sobre Calvim Brock como se fosse eu quem tivesse levado aquelas porradas todas e apelado pros clinches como eu apelei.
Só que foi nocaute – depois de SEIS knock-downs pra mim.
Quer dizer, pro Ali.
Quer dizer: foda-se.
Eu gritei, pulei e até abri cerveja.
Foi patético, mas... caralho... foi do caralho!
Só que eu andava roubando.
Na madrugada anterior, eu lutei contra um desses lutadores que o computador inventa.
Não lembro o nome dele, mas o filha da puta era o cão pra cair.
Eu tava levando a luta pro décimo primeiro round (achei que eram doze, mas não sei), tendo ganhado TODOS eles até então, quando o cara virou a mesa e eu tava, pela terceira vez, apelando pro clinche.
Pausei o jogo, meti o dedo no botão e desliguei sem salvar.
Pau no cu.
O caralho que ele ia me derrubar.
Não ali, não agora e não numa noite perfeita daquelas quando tudo que eu queria era dormir em paz pra sexta chegar logo.
Então, quando eu acordei, a primeira coisa que eu fiz foi ligar o jogo e cobrir o Oscar de la Hoya de porrada, que é pra isso que ele tá lá (não é?).
Foi um massacre sem tamanho e era só isso que eu queria.
Eu já tinha feito mercado, a cerveja já tava gelando, o café tava pronto.
Enchi uma caneca e liguei o mp3.
Calhou do disco começar justamente com “Trust In Me”.
Esqueci a caneca cheia em cima da pia e fui trabalhar.
Devo ter exercitado o TOC de verificar se a porta ficou realmente trancada umas três vezes porque, quando o elevador chegou no térreo, já tava tocando a música seguinte, “A Sunday Kind Of Love”.
Cara.
Eu me sentia um puta cara de sorte pelo seguinte: as melhores músicas que existem ou são tristes pra caralho ou são felizes pra caralho.
Em ambos os casos, eu gostava delas mais do que jamais gostei.
Quando elas eram felizes pra caralho, eu gostava porque eu ando tendo motivos pra ser o cara mais feliz do mundo – então, elas fazem sentido.
Quando elas eram tristes, elas me deixavam ainda mais felizes – porque eu não precisava conviver com aquele tipo de tristeza.
Era como se eu visse um quadro de uma paisagem com neve e pudesse achar a neve linda – e não sentir frio.
Eu não me engano – eu ia andando pela rua com os pés de Ali, os ouvidos em Etta James – e ia contando as bênçãos, uma a uma, e agradecendo por todas elas – com um coração devoto a mãe de todas elas.
Quando cheguei pra atravessar a Amaral Gurgel, tava tocando “Tough Mary” e a música me fez pensar ainda mais na Joice. Eu já vinha pensando que esse era um disco que ela precisava ter e, com essa música, a coisa ficou irrevogável.
Ela tem batida de rock’n’roll e meus pés de imitar Ali dançavam impacientes, esperando farol fechar.
Quando ele fechou, um carro verde parou depois da faixa de pedestres e eu fui, decidido a passar por trás dele. Esse carro verde tinha um bagageiro daqueles de capô e, em cima desse bagageiro tinha duas escadas e um feixe de canos pretos, de plástico, maiores que o comprimento do carro.
Pulando com os pés de Ali, com Etta James no ouvido e a cabeça em Petrópolis, eu fui.
Não sei por onde foi que a sensação chegou primeiro, mas quando vi, já tava com a mão esticada, tocando o feixe de tubos de plástico que tinha se aproximado ameaçadoramente demais pro meu gosto da minha têmpora direita.
Não sei de onde veio esse reflexo.
O carro verde tinha resolvido dar ré pra tirar o bico do cruzamento com a Major Sertório e provavelmente esqueceu o tamanho das paradas que carregava no bagageiro do capô.
Eu estava em outro planeta, mas botei a mão neles como quem apara um cruzado sinistro daquele lutador que eu não sei o nome, dei dois ou três passos pra trás, com os pés de Ali.
O motorista do carro, de olhos arregalados, pediu desculpas quando eu olhei pra trás. Meneei com a cabeça, como quem diz “esquece, não foi nada” e continuei.
Meus ouvidos voltaram pra Etta James e a música que tinha acabado de começar. Reconheci logo no primeiro acorde.
Se você conhece esse disco, “At Last”, você sabe qual é a música que vem depois e eu não preciso dizer onde estava minha cabeça.
Ela não estava esparramada em pedaços embaixo do Minhocão e isso me bastava.
Eu contava minhas bênçãos e estava feliz pra caralho porque a mãe delas estava pra chegar.
Faltava pouco e aquela música me dizia tudo que eu queria.
Quando cheguei na Praça da República, a faixa título me acertou como um raio. Tem um gesto que eu faço sempre que uma coisa me é sagrada, que é beijar o nó do dedo da mão esquerda e, todo dia, quando eu passo lá atrás do Caetano de Campos, repito esse gesto.
Naquele lugar, quando esse disco não era tão velho assim, minha existência foi viabilizada pra, depois – bota aí “quarenta anos depois” – ela ser justificada.
Naquele lugar, começou a tocar “At Last”, a música, cuja letra diz o seguinte:
“At last, my love has come along
My lonely days are over
And life is like a song
Oh, yeah, at last
The skies above are blue
My heart was wrapped up in clovers
The night I looked at you
I found a dream that I could speak to
A dream that I can call my own
I found a thrill to rest my cheek to
A thrill that I have never known
Oh, yeah when you smile, you smile
Oh, and then the spell was cast
And here we are in heaven
For you are mine
At last”
Enfim.
fim.
Postado por Fernando T às 10:25 AM 0 comentários
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Bizgunzo é você
27.9.09
"Bizgunzo". Morri. (about 3 hours ago from web)
Bizgunzo foi uma palavra que o américo e eu inventamos pra assustar os outros.
a gente botava o cano de aspirar a piscina na boca – um cano de uns três metros de comprimento - e a palavra ia sair ali adiante. era como se o darth vader dissesse “bizgunzo”. uma palavra que a gente inventou e achou engraçada, que toda vez que a gente falava, a gente ria que nem bobo. isso, claro, acabou gerando um problema, porque a gente não conseguia assustar ninguém.
vai.
tenta.
diz “bizgunzo” em voz alta.
diz como se fosse assustar alguém.
é, só que com a voz do darth vader.
percebe?
a gente até assustava. mas o ataque de riso subseqüente era tão inevitável, que a gente sempre acabava sendo descoberto.
acabava que tinha mais gente pra assustar que pra ser assustada e ataque de riso já é difícil de controlar. em grupo, é pior ainda. ainda mais quando tinha o pulha do anjinho, que peidava sob pressão. nem fedia. era só de efeito moral. mas vai lá você. tenta numsimijá de rir depois daquele “prôc” que ele fazia.
tenta.
bizgunzo virou verbo.
(“bizgunzaram tudo que tinha aqui” ou “e aí? bizgunzô?”)
bizgunzo virou um estado d’alma.
era quase como se a gente pudesse dizer o que não se pode ser dito.
sabe aquilo que a gente não consegue dizer, porque se conseguisse, eu conseguiria dizer pra você o tanto que eu te amo, exatamente, e você saberia que isso é o céu e todo o resto é inferno. você saberia. porque se eu dissesse o que eu não posso dizer, não seria preciso dizer – estaria lá – existe, vive e é.
bizgunzo era quando as coisas pareciam estar certas, a gente parecia estar ganhando e não era preciso nada pra continuar feliz assim. era um momento que se repetia. um pensamento bom. um acidente feliz. a ligação certa da pessoa certa, na hora certa, dizendo “oi, beibe”. bizgunzo é quando o raio cai no mesmo lugar, pela enésima vez, mas – uau – é tão do caralho quando ele faz isso.
se eu fosse douglas adams, buzgunzo seria 42.
você é aquilo que te faz feliz de verdade. 
(com o tempo, bizgunzo, passou a ser nome de pau.
mas, veja bem.
isso não desmerece o caráter divino da coisa. a gente era tudo homem brincando de macaco. homem não pode dar nome pra um deus, que já vai logo chamando o pinto pelo mesmo nome.
macaco come banana.
banana é bom.
monkey see, monkey do.
do be do be do)
como eu ia dizendo:
você é aquilo que te faz feliz de verdade.
vê hoje, por exemplo.
domingo, 27 de setembro, 2009.
dá pra dizer que o dia hoje foi bom?
claro que dá.
eu seria um imbecil ingrato e filho da puta se dissesse que não.
você sabe o porquê.
encontrei o amor, a amizade e um novo irmão
e o meu caminho eu escolhi.
e cantei pro mundo,
pra todo mundo ouvir
que eu fiz a minha vida sorriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiir.
(desculpa. tava cantando)
só que teve outra coisa.
eu tinha um cartão telefônico.
podia te ligar.
dizer “beibe, eu amo você”.
aí, sim.
bizgunzo.
wuub.
é.
little did he know.
uns acidentes são felizes.
o cartão travou.
que nem o publicador.
só que ele deu aquilo que a gente sempre pede: tempo.
pelo menos ali, no cartão telefônico, o tempo parou.
tudo que eu mais queria.
tempo parasse naquele momento, quando você diz “oi, beibe”.
e ele pára.
quase pára.
tá.
parei.
mas olha, beibe: foi isso que eu disse pra ju que admiro em você.
foi naquele dia em que eu achei que ela era você, pela primeira vez.
disse que conversar com você parecia aquela cena em “peixe grande”
em que o tempo para, as pipocas ficam suspensas no ar
e, depois, o tempo corria mais rápido pra compensar o que tinha ficado parado.
hoje, a gente tem o nosso tempo e ele é isso assim: nosso.
ele é inútil quando não tem você.
quando tem a gente, o tempo ainda anda devagar, mas anda.
por isso, quando o cartão travou na unidade 41, foi o céu, com deus, anjos e tudo.
por um tempo que eu não esperava ter a gente pôde conversar.
sem pressa.
por uma unidade 42.
infinita como a saudade, que acaba e, daí, acaba de acabar e fica infinita de novo.
42.
deus cada um tem o seu.
mas douglas adams só tem um.
o que eu quero dizer é.
não que eu não estivesse feliz antes
mas AQUELE feliz não é nada
perto desse feliz de AGORA.
ps: bizgunzo me lembra buzunguinha, buzanga, buzi que, você sabe, parece a gata do américo.
Postado por Fernando T às 11:55 PM 1 comentários
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o falso e imenso vazio
3.9.09

“calma. tá tudo bem agora”, diz o entei.
eu acredito nele, de verdade.
tá tudo bem agora.
o aluguel tá pago – falta, é claro, ir até a imobiliária
e deixar o cheque,
mas que tá pago, tá.
acabei de encontrar o proprietário do apartamento
e ele me trata como filho.
um filho que dá mesada pro pai,
mas, ainda assim, um filho.
tá tudo bem agora.
eu disse pra ele que tá tudo bem.
ele é baixinho e não dá pra deixar de pensar
que é por causa disso que eu apanho tanto banheiro quando acordo.
armário baixo,
box baixo,
espelho baixo.
bending down,
not kneeling over.
that’s a fact, jack.
ontem, num momento ruy castro desses da vida,
tava lendo uns contos zen
e vi uma história de um monge que atingiu a iluminação suprema
mordendo um galho de uma árvore.
ele tava dependurado lá,
preso só pelos dentes e, daí,
chega um monge mongo e pergunta:
“como foi que você chegou à iluminação”.
mongo.
ele devia perguntar quem era ele
antes de chegar até ali.
pra saber o que você tem
você precisa saber o que você não tinha antes.
é como um sonho
se a gente olhar diretamente pra ele
ele se desfaz
como um peixe que pergunta “o que é água?”
porque ele nunca viu nada além de água
e há tanto dela que ele nem sabe ver que água é tudo.
tudo.
de tão imerso, ele perde noção do imenso.
não dá pra gente olhar e ver onde a gente tá.
quando a gente consegue, chama epifania.
é bonito e é raro.
não é justo e nem bonito tecer comparações entre passado e presente,
mas, às vezes, você olha pro mundo, de rabo de olho, e isso salta aos seus olhos.
é inevitável.
resistance is useless.
você percebe que havia margens antes,
mas agora não há.
você percebe que havia limites antes,
mas agora não há
você percebe que você era doente antes,
mas agora não é.
talvez nunca tenha sido.
talvez agora – só agora – você tenha se tornado o que sempre foi.
habitue-se com isso.
(pra Joh, com amor)
Postado por Fernando T às 12:56 AM 2 comentários
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36 anos
20.8.09
Hoje é o dia do meu aniversário.
São onze horas da manhã e eu não gravei a mixtape que eu me prometi gravar.
Tem problema não.
Tô fazendo faxina aqui em casa e pensando na vida.
Hoje de manhã, não era nem oito horas, eu tava de pé.
Esqueci de desfazer os despertadores todos, programados pro meu primeiro dia de trabalho na Record.
Meus pais me ligaram e deixaram uma mensagem falada no correio de voz do celular.
Sabe lá Deus quando eu vou poder ouvir.
Não era nem nove horas da manhã e eu achei que era uma boa hora pra sair e ver o mundo.
Fui naquela loja de cama, mesa e banho que desde mudei pra cá queria ir.
Como o que tem de mesa em casa não conta como tal, comprei coisas de cama e de banho.
Comprei duas toalhas novas, uma roxa e uma azul e vermelha, e agora, posso jogar fora as toalhas velhas.
Só não vou jogar aquela que ganhei do Billy Ficca, do Television porque não é todo mundo que ganha uma toalha branca e limpa do Billy Ficca.
Ela não tá assim tão branca e nem tão limpa, mas, mesmo assim fica.
Ficca.
Comprei dois travesseiros novos e não vou jogar fora os velhos não.
Vou jogar aquele de espuma porque nem travesseiro de albergue é tão xexelento.
Não tem uma única roupa suja aqui em casa.
Levei na lavanderia e prometi pegar amanhã.
Deu 60 reais a conta.
A Rejane, que trabalha lá, olhou o tanto de roupa que eu tava levando e perguntou “mas faz tempo que você não lava roupa, hein?”.
É.
Fazia tempo. A última vez foi no final de março.
Depois, foi tudo pedindo emprestada máquina de lavar da Calu e voltando da Japurá até aqui equilibrando três sacolas que me faziam andar de um jeito bem esquisito.
Assim como aconteceu com Bob Dylan, as pessoas achavam que eu era mendigo.
Meus pais ligaram.
Provavelmente estavam no carro.
Ligaram do celular e falaram rapidinho.
Eu tava tomando café e comendo biscoito de leite, na janela, embasbacado com o email que recebi da Joh, dando bom dia e fêliz aniversário.
A foto que ela me mandou é a coisa mais linda do mundo.
Peço perdão a ela por usar o “coisa mais linda do mundo” outra vez, mas não existe nada mais lindo no mundo, em lugar nenhum e foda-se.
Meu mundo é outro e foi ela quem deu pra mim.
Logo mais vou tomar banho e ir até a Jovem Pan, me despedir dos amigos que ficaram lá. Fiquei uma semana correndo atrás de documentos e acabou que saí de lá sem me despedir de ninguém. Liguei pro André ontem pra avisar que ia porque pelo menos ele tem que estar lá. Não só porque ele é um dos melhores e mais brilhantes amigos que eu fiz por lá, mas também porque eu vou poder pagar a grana que eu devo pra ele desde o ano passado.
Lembrei do anúncio de jornal do Mike Dolan.
Lembrei também daquilo que o Tony me falou quando foi aniversário dele, sobre o número 12. São doze meses no ano, são doze apóstolos de cristo, doze lápis pra colorir e doze garrafas de Heineken na geladeira. O Tony disse que a vida se move em ciclos de doze e, naquele mesmo dia, aconteceu uma coisa sensacional que, perdão, eu não vou explicar agora – posso dizer que vi minha namorada e meu melhor amigo conversando através de mim, como se ela tivesse um jeito de estar presente sempre e, às vezes, brincasse de bomba relógio. Campbell, que usava meu banheiro naquela época, concordou com o Tony nessa coisa sobre o número doze e disse que é preciso balançar com as ondas.
Fiz doze anos em 1985.
Ano que o mudei de colégio e fui pra um mundo maior. Saí do Centro Educacional Júlio Pereira Lopes e fui para o Colégio Anglo Latino. Ano em que o Tancredo Neves morreu e, puta merda, o Sarney acabou presidente. Fim da infância
Fiz 24 anos em 1997.
Foi o ano em que saí da faculdade e caí no mercado de trabalho. Fim da molecagem. Um ano antes, eu tava pra ser mandado embora da 89 porque, embora funcionário contratado, ainda me sentia meio estagiário. Em 1997, firmei o pé. Isso teve seu preço, mas eu aprendi.
Agora, em 2009, completo 36 anos.
Fecho assim, mais um ciclo de doze.
Os últimos anos foram terríveis, mas tiveram uma coisa de bom – eles passaram.
Este ano teria sido uma bosta sem tamanho, mas não foi.
Eu poderia chorar mil coisas aqui, reclamando disso ou reclamando daquilo, mas não.
Este foi um ano em que eu comecei lendo “Espere pela primavera, Bandini”, do Fante. A parte final do livro, quando o Fante descreve a chegada da primavera, ficou gravada no sangue. Rosa Pinelli morta, um cachorro meio lobo meio cão de caça, chamado Jumbo e um floco de neve em forma de estrela derretendo nas costas de sua mão.
O fim dos dias tensos.
O fim dos dias tristes.
Vou tomar banho e levar pra igreja as roupas que separei pra doar.
São três sacolas grandes e pesadas.
Ainda maiores que as sacolas de roupa suja.
(Foi só falar na igreja que o sinos do meio dia começaram seu espetáculo diário – meio dia, 20 de agosto de 2009)
Chegou um sms da Joh dizendo que, se o Submarino for legal, ganho meu presente ainda hoje.
Respondi pra ela que não se enganasse.
Tê-la em meu futuro é o melhor presente que poderia haver.
Eis tudo.
Feliz ano-novo, Fernando Tucori.
PS: Pra provar que, às vezes, o que a gente pensa que é tudo é quase tudo, meus pais me ligaram de volta agora, da casa da minha avó. Botaram dona Iracema na linha e eu chorei de alegria como uma criança por ouvir o “Deus te abençoe” dela.
Postado por Fernando T às 12:41 PM 1 comentários
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