3.3.09

Let the good times roll





Eu queria escrever alguma coisa que te desse vontade de viver mais.
Não se se eu tenho essa capacidade, mas sei que tenho esse desejo.

Tava aqui, a ponto de te perguntar o que te faz feliz, mas me veio outra idéia na cabeça: é mesmo preciso ser feliz agora?

Não pergunto isso porque eu acho que não seja – e é justamente o contrário, porque eu acho que é preciso sim.
O que eu acho é que já era pra ser feliz faz um tempo, mas a gente vai procrastinando.
A gente vai empurrando com a barriga e espera uma puta cara pra tomar aquelas decisões que vão foder com a vida da gente – ou não.
E é justamente nesse “ou não” que bate o ponto.

Por que.... e se der tudo errado?

E se, de repente, aquele salto no abismo que a gente tanto teme seja justamente tudo que a gente precisa?
E se a morte for vida e a vida for morte e andaram ensinando tudo errado pra gente na escola e na vida – sobretudo na vida?
Do mesmo jeito que esse “amor” que a gente ouve falar por aí é uma simplificação imbecil do amor que a gente pode sentir, a felicidade também pode ser.

Do que a gente precisa?

Quando eu tava fazendo “Gigantes da Montanha”, do Pirandello, no INDAC, o Aldo fazia um personagem magnífico, que – ou eu muito estou enganado – se chamava Docia.
Ele era uma espécie de mendigo que vivia num lugar que era uma espécie de Paraíso na terra.
Ele defendia com unhas e dentes a tese de que quem tem muito, tá fodido.
E quem não tem nada, é livre.
Lembro que tinha uma frase que ele dizia que era meio assim: “Ninguém pode ter tudo”. E a gente não podia olhar pra cara um do outro porque o Aldo era tetudo e aquela frase, na boca de chupar bife dele, fazia um sentido completamente diferente – e isso podia fazer com que metade do elenco se mijasse de rir em cena, cagando pro público.

O que eu quero dizer é que alguém ensinou pra gente que ser feliz nunca é o bastante.
Ensinaram pra gente que amor, também, nunca é o bastante.

E é aí que tá a merda.

Porque a gente se desacostuma a agradecer.
A gente se desacostuma e estar contente e hoje, simplesmente, deixar o amanhã chegar, como aquela onda da praia que vem lamber os nossos pés.
A gente foi ficando mal acostumado, mimado e ingrato.
A gente PRECISA agradecer.

E como aquela história de Sagarmatha, que é o nome, em nepalês, do pico mais alto do Everest. O nome quer dizer “rosto do céu” (embora eu ache mais bonito o nome tibetano, Qomolangma, que quer dizer “mãe do universo”).
É o lugar mais alto do mundo, o lugar mais difícil de se alcançar – como o nirvana.
Mas é aquela coisa: é um belo lugar pra se chegar, mas um péssimo lugar pra se morar.

Justamente porque, não se pode ter tudo.
É legal chegar, mas não dá pra morar lá.
O problema com esse amor e essa felicidade que as pessoas insistem em vender nas farmácias é que exige-se um grau enorme de imobilidade por parte deles.
E o que acontece é que, quando você chegar lá no rosto do céu mais uma vez, você não vai encontrar a mesma coisa.
O rosto do céu vai ser outro.
E o seu rosto também.

A gente tá sempre procurando alguma coisa que sirva pra completar a gente. Isso porque a gente é inseguro demais, se acha imperfeito demais e adoraria poder mais um pouco do que a gente realmente pode.
Mas digo e repito: a gente devia agradecer.
Porque, se não fosse assim, a gente seria metido pra caralho. Porque a gente ficaria no oito ou no oitenta. Ou tudo é possível e nada tem graça. Ou nada é possível e tudo tem ainda menos graça. Nos dois casos, nego se mata.

O que acontece?
Onde é então que a gente caga com tudo?
A gente caga por não saber o que quer.
Esse é o ponto número um.
E a gente caga também no ponto número dois, que é quando a gente tem o que quer, mas fica querendo que aquilo dure pra sempre.
Porque, no caso um, como é que você vai querer felicidade ou amor se você não sabe como é que a cara dessas duas criaturinhas?
E outra: por que é que você vai querer esticar pra sempre uma sensação que só faz sentido hoje?
Amanhã vai fazer sentido também.
Mas não é o mesmo.
É outro.
E isso é bom também.

Confia em mim: espere pela primavera.
A neve sempre derrete amanhã.
Deixe o amanhã chegar porque o amanhã vai ser melhor.
Vai sim: se você deixar.

Deixa, vai?

2 comentários:

Calu Baroncelli disse...

"ponto número dois, que é quando a gente tem o que quer, mas fica querendo que aquilo dure pra sempre"
nesse ponto, eu caguei tão feio, que tou tentando limpar tudo até hoje.
Mas ainda bem que, esperando a primavera chegar, estou percebendo o quanto há vida após a separação.
E te agradeço muito por me ajudar a perceber isso!

m.soldi disse...

eu queria fazer um comentario, mas acho que não cabe, só um valeu!