13.5.08

HÉLIO MATHEUS - 50 ANOS DE MÚSICA BRASILEIRA




Hélio Matheus terminou de tocar “Meu Interior”, composição dele gravada por Sérgio Reis, como geralmente termina com todas elas, num baque. É um baque surdo e raivoso de um corpo caindo do topo de um prédio, com os dentes trincados em desafio ao chão. O público que acompanhou aquela figura esquálida com o rosto desfigurado pela desventura do seu cantar, urra antes mesmo que o último acorde seco se desfaça no ar. Hélio canta como o comandante de um navio em chamas, mas a ferocidade em seu semblante assenta diante dos aplausos e seu rosto retoma o tom plácido de seus olhos azuis.
São 50 anos de música, 67 anos de idade e continuamos contando. O tempo foi implacável com Hélio Matheus em todos os sentidos que poderia ter sido.
Não há quem não se compadeça com a cigarra que morre depois de cantar por todo o verão na fábula da cigarra e da formiga. Hélio Matheus é a cigarra que sobreviveu à própria biografia.

Hélio nasceu em 5 de julho de 1940, no Rio de Janeiro, e é um cara da velha guarda. Aquela mesma velha guarda de Leonardo Da Vinci, em que o campo “profissão” na carteira de trabalho vem seguido de três linhas cheias do princípio ao fim.
Aprendeu a tocar violão com o pai, tomou gosto, levou jeito, fazendo apresentações improvisadas em festinhas e, sete anos depois do primeiro acorde, compôs sua primeira canção, “Meu Amor”. Passou-se nem um ano de “Meu Amor” e a mãe de Hélio morreu. Daí em diante, seu amor nunca mais foi o mesmo.
A morte de sua mãe não era tristeza pra se colocar nas cordas do violão e, por isso, largou a música e foi pra Três Pontas, em Minas Gerais, esfalfelar os dedos em uma usina de açúcar. Assim que a tristeza chegou às raias do insuportável, Hélio voltou pro Rio e foi morar com a avó, perto da igreja da Candelária. Lá, disfarçado sob a máscara , ora de balconista de lojas de disco, ora de vendedor de máquinas de escrever, ia arrumando meios para tocar em bares e boates da noite carioca. Tocou na boate Plaza, em Copacabana, em 1961 e , lá, teve ao seu lado no palco gente como Altemar Dutra, Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto.
Em 63, Hélio conseguiu um emprego melhor vendendo máquinas copiadoras. Em questão de seis meses, percebeu que o emprego melhor faria dele um músico menor, meteu tudo na mala e foi pra São Paulo com o diabo ter.
Em São Paulo, ele ia tentar a resposta para a Grande Pergunta da Esfinge: é possível para um artista viver da sua arte?
Tom Zé, que morou na mesma pensão que Hélio na rua Conselheiro Brotero, deu a primeira dica e, então, ele passou a pagar suas contas dando aulas de violão. Na sua peregrinação pela noite paulistana, depois de uma temporada na Tio Pena, da Amaral Gurgel, passou a ser nome conhecido entre os nomes conhecidos. Lá, foi apadrinhado por Ataulfo Alves que o levou de volta para o Rio de Janeiro, apresentado seu afilhado a todos que realmente importavam no metiê.
Nessas horas, ou vai ou racha.

E foi.

Em 1965, no Rio, Hélio vai fechando a seqüência mínima e compõe músicas com uma infinidade de nomes em ascensão. O sucesso parece ter chegado quando, com “Comunicação”, na voz de Vanusa, alcança a terceira colocação no Festival da Música Popular Brasileira. Mal sabia o que lhe esperava, quando, deitado em sua cama no Solar da Fossa, espantou-se com os acordes familiares com que Elis Regina abria seu show, na turnê do disco “Em Pleno Verão” no Canecão. Parecia um sonho, mas Elis abriu e fechou sua apresentação com “Comunicação”. Hélio foi até os camarins do Canecão e foi recebido por Elis, que gracejou com seus cabelos e o convidou para encontrá-la em sua casa.
Helio conta que atravessou montes e vales para chegar à casa dela por duas vezes e, nas duas vezes, deu com a cara na porta. Porém, já era tarde demais. Hélio se viu inserido na MPB e a Jovem Guarda já não fazia mais o mesmo sentido.
Contratado pela RCA-Victor, Hélio lança seu primeiro disco-solo, o antológico “Matheus Segundo Matheus”, com produção de Oberdan Magalhães, Azymuth como banda de apoio e mais uma orquestra de, segundo Matheus, 128 músicos. O disco traz sucesso, o sucesso traz mais sucesso, o prestígio aumenta cada vez mais e, cada vez mais, os excessos afastam a realidade enquanto o tempo insiste em não parar.
Aí, acontece o que sempre acontece nesses casos. O sucesso passa, o prestígio acaba e, quando a névoa dos excessos se dissipa, a única coisa real que permanece é o tic-tac do relógio do crocodilo que comeu a mão do Capitão Gancho e, pra passar mais um tempo na Terra do Nunca, você volta aos excessos e torce para que a névoa nunca mais se dissipe e o tempo nunca mais passe.
Tic.
Tac.
A apresentação foi um mistério desde o princípio. Hélio Matheus se apresentaria no dia 20 de maio, no sarau de encerramento da temporada 2007 da peça “Crepúsculo”, encenada pela Velha Companhia no espaço do Grupo XXI de teatro na Vila Maria Zélia, na Zona Leste de São Paulo, uma vila tombada pelo patrimônio histórico. Ninguém sabia se ele realmente tocaria até que o apresentador do evento chamou seu nome. Hélio se levantou e foi na direção oposta ao palco. Apagou o cigarro e subiu, acompanhado pelo mesmo violão de tarrachas de madrepérola da capa de seu primeiro disco, de 33 anos atrás.
Nem quem achava que sabia, soube o que esperar. Um senhor de 67 anos sobe ao palco, de moletom azul claro e agradece a recepção. “Eu vou começar com ‘Camisa 10’ que é meu maior sucesso. Se vocês quiserem cantar junto... seria melhor”.
E não é que a versão só com voz e violão põe todo mundo pra cantar? No meio da música, ele diz “Wanderléa” e emenda “Kriôla”, já pelo refrão e, logo no primeiro verso, interrompe o som para contar uma curiosidade sobre a dificuldade que a Ternurinha teve com a frase “você não sabe a responsabilidade que dá”. A platéia ri abertamente. Quando ele termina “O Rock Do Rato”, sucesso gravado por Franco Scornavacca (pai dos KLB) duas meninas da platéia choram e, bestificadas, ainda não entendem o que está acontecendo.
Quando ele lança mão de “Comunicação”, a questão se responde.
Hélio é, hoje, tanto quanto sempre foi.

A vida de Hélio, como diz sua letra para a inédita “Livro Aberto”, tem tantas páginas que não dá para contar. Ele levou uma vida inteira para chegar onde chegou, viu quase tudo e descobriu seu caminho, que era cantar pro mundo ouvir que ele fez sua vida sorrir.
O sorriso nos lábios de Hélio Matheus é um sorriso entortado pelo tempo. Um sorriso que tenta esconder as feridas que ainda sangram em suas canções. É um sorriso de quem passou a vida toda procurando e que raramente foi encontrado. Porém é um sorriso que lembra bem de cada uma dessas raras vezes, porque foi aí que ele conseguiu o que queria – ser aceito.
Esse foi seu único e maior erro. O tempo é implacável com o artista e, em três movimentos, pode levá-lo da fama ao ostracismo, mas, no mesmo passo, aproxima sua obra da eternidade. O amor pela obra do artista é infinito, enquanto o amor pelo artista é fogo de palha e, embora você provavelmente amasse conhecer Hélio Matheus, você vai amar ainda mais conhecer sua obra.
Hoje, Hélio sabe.
Não existe fim.
Nós é que acabamos.
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