12.1.18

vivemos dias incríveis que não passam de ilusão


Foto de Mel Monteiro/Focka (CC BY-ND 2.0) - Citibank Hall (RJ), em 19.01.2013

Durante muito tempo, nos corredores da 89 — A Rádio Rock, tínhamos uma brincadeira só nossa: a gente olhava preocupado para o outro, dizia “meu, tu não sabe o que aconteceu...”. Esperava o “O QUE FOI, CARALHO?” antes de responder: “os caras do Charlie Brown invadiram a cidade”, igual na letra de O Coro Vai Comê.

Hoje, quando fiquei sabendo da morte do brother Chorão, foi dessa piadinha tosca que eu me lembrei.

Acho que eu fui o primeiro cara a tocar Charlie Brown Jr no rádio em São Paulo.

Talvez não tenha sido, mas falo disso porque o Chorão morreu e acho que talvez seja essa a lembrança mais legal que eu tenho a respeito do cara.

A época, eu trabalhava na 89 – A Rádio Rock e tinha assumido o lugar do Kid Vinil na tarefa de apresentar as novidades e os lançamentos pro ouvinte.
Eu entrava duas vezes durante o 89 Decibéis, que era o programa de maior audiência da rádio à época e começava às 18h.
Normal era eu estar com tudo pronto às 17h30, mas, naquele dia, meu chefe me chamou na sala dele e disse que a gente ia lançar uma banda nova, que se chamava Charlie Brown Jr e a música era O Coro Vai Comê.
Estas eram todas as informações que a gente tinha a respeito dos caras e eu fiquei desesperado.
Vou entrar no ar falando só o nome da banda e da música?
Jamais!
Fui atrás do povo da gravadora e eles me passaram o telefone de uma divulgadora que poderia me dar as informações que eu queria.

Entenda, camarada: Isso foi no meio de 1997 e, naquela época, era praticamente impossível achar textos sobre bandas brasileiras na internet.
Sobre bandas novas, então, nem pensar!
Liguei para a divulgadora e, pra minha sorte, ela estava com os caras da banda.

Eles todos ficaram sabendo que a 89 ia tocar a música deles e foram todos juntos ficar em volta do rádio para ver como é que isso ia rolar.

Era tipo final de Copa do Mundo pra eles.
Rolou um certo alvoroço com todo mundo falando ao mesmo tempo e o que eu pude pescar da gritaria acabou entrando no texto.
Lembro o começo dele até hoje.
Dizia que o Charlie Brown Jr era uma banda que tinha integrantes com nomes esquisitos.
O baterista era o Pelado (porque ele tinha o hábito de andar pelado quando era criança), o baixista era o Champignon (porque ele teve — mas não tinha mais — o cabelo parecido com um cogumelo) e tinha o vocalista, que era o Chorão, que tinha esse apelido porque era um cara emotivo e chorava por qualquer coisa.
Essas informações, junto como o nome do disco e o fato deles serem de Santos, conseguiram segurar meu texto pra introdução da banda que se tornaria parte da história da rádio.

Na real, esse texto acabou virando um problema porque ele ficou guardado no estúdio e foi lido à exaustão pelos locutores na época em que O Coro Vai Comê entrou na programação.

Um dia, cheguei na rádio com uma sanha de escrever uma dúzia de textos diferentes com informações novas sobre a banda só para evitar que os locutores ficassem massacrando aquele mesmo texto.
Como que por mágica, nesse mesmo dia, quando eu cheguei lá pra trabalhar, tinha um cara me esperando na recepção.

Ele se apresentou como Chorão e disse que estava lá para gravar material promocional pra rádio, aquelas vinhetas em que ele diz “Oi, aqui é o Chorão do Charlie Brown Jr e você está ouvindo a Rádio Rock” e coisas assim.

Lá estava ele: um cara normal, igualzinho a mim. Ansioso, ele ficou com medo de atrasar e chegou duas horas antes que todo mundo.
Eu fui com ele pro estúdio e a gente começou a gravar, conversar, dar risada e, aparentemente, tudo que ele queria saber era se as pessoas estavam gostando mesmo do som que ele e a banda estavam fazendo.
A resposta veio mais tarde, quando Transpiração Contínua Prolongada ganhou certificado de platina, vendendo 250 mil cópias, mas, naquela hora, minha resposta pra ele foi “cara, você não faz ideia: sua vida vai mudar pra sempre”.
Eu lembro das vinhetas que ele gravou comigo e elas eram bem bobinhas.

Logo depois, toda a alta produção da rádio foi até o estúdio acompanhar o cara e, com eles, veio o produtor Rick Bonadio, que mudou tudo que a gente estava fazendo, botando o Chorão pra improvisar hip-hop em cima das introduções.
O resultado ficou muito melhor do que aquele que eu tinha conseguido.
Ficou profissional, épico.
Se você ouvia a Rádio Rock naquela época, vai lembrar da introdução que ele gravou.

Não tem como esquecer.

 Eu queria ter tido a sabedoria de guardar aquelas vinhetas ruins que eu fiz, mostrando o Chorão inseguro, humano, fazendo piadinha e gritando que nem criança dentro do estúdio.

 Ninguém precisaria ouvir uma delas pra dizer que, para o bem ou para o mal, a vida mudou pra sempre depois daquele dia — e não foi só pra ele, não.

 Eu sabia que tinha ajudado a escrever o primeiro capítulo da história desse cara, mas a gente nunca faz ideia de que, lá na frente, vai acabar escrevendo o último também.

 (texto publicado no R7 em 6 de março de 2013, ocasião da morte de Chorão)

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