11.2.12

histórias do edifício tiatã: o idiota e as velhinhas


aqui no prédio tem duas velhinhas.
uma chata e outra legal.
é fácil saber qual é qual:
a legal é a que parece chata
e a chata é a que parece legal.

tem também um porteiro
(se bem que na real,
os porteiros são quatro,
mas idiota só tem um
e é desse que eu vou falar).

o tal do porteiro, esse idiota,
come mosca pra caralho
e, de tanto esquecer da porta
e deixar velhinha pra fora,
debaixo de toró que dá no verão,
fio criando pra si, pouco a pouco,
uma sólida e firme reputação.

o idiota é abduzido pelo joguinho do celular.
esses dias, que eu parei pra jogar lixo,
parei pra escolher a trilha sonora
depois de ele já ter aberto o portão,
biscoitei o jogo dele: angry birds seasons.

foi no 19o. nível de angry birds seasons que eu parei e nunca mais voltei.
é uma merda porque falta passarinho e, além do mais,
tem sempre um outro aplicativo rodando por trás.

Fiquei com dó do idiota e contei tudo pra ele.
contei das velhinhas, todas proprietárias,
que esqueciam até o andar de moravam,
mas jamais perdoavam o porteiro
que não deu a elas a devida atenção
e a deixaram debaixo
de um toró de verão.

ele entendeu o burraldo.
ele entendeu.

do dia pra noite, era aparecer uma velhinha
e o idiota pulava da cadeira, ia lá, pessoalmente,
abrir o portão pra velhinha entrar,
ajudava a velhinha a carregar as compras
e tudo mais que era A OBRIGAÇÃO dele.
Mas ele fez com um prazer comovente,
como se tivesse precisado disso pra sacar aquilo:
que ele só precisava ser agradável
e que isso era fácil.

foi aí,
bem aí,
que ele errou o tom.

a velhinha chata parecia legal porque falava com todo mundo,
mas ela era chata justamente por isso
porque tudo que ela quer é isso: é falar e falar e falar.
e ela está sempre querendo convencer todo mundo de alguma coisa.
e isso meio que cansa a gente, que acaba deixando ela falar,
na esperança que, numa hora que ele puxar um ar,
a gente consiga engatar um "é, então é isso",
o katagatami do papo furado.

o idiota caiu na conversa dela e, agora, ela montou bonito.

hoje, quando cheguei do trabalho, lá estava ela,
dando ordens napoleônicas no ínfimo hall do Tiatã.
pedia ao idiota que ligasse o elevador que estava desligado
porque o outro, o que estava ligado, tinha tapete.
ela não queria tapete.
o tapete irrita o nariz dela.
tudo irrita o nariz dela.
um cigarro meu, uma vez, irritou o nariz dela.
um cigarro APAGADO.

o idiota abriu o primeiro portão,
mas esqueceu do segundo.
fiquei um tempo parado do lado de fora,
esperando o idiota virar inteligente.
antes de desistir e dar com o nó dos dedos no vidro da porta,
olhei pro lado e, no lado de lá, na loja de doces vizinha ao prédio,
estava a velhinha legal.
ela bateu com o dedo na têmpora,
num gesto de gaulês falando dos neuróticos romanos.
por isso ela era legal.
quando ela olhava pra você, o olhar dela dizia:
eu entendo, filho, eu entendo.

o idiota abriu a porta e o elevador ainda era um dilema.
a velha chata queria o elevador sem tapete
e o idiota ainda não tinha botado o elevador sem tapete pra funcionar.
o elevador com tapete chegou e eu fui nele.

quando passei por trás do idiota eu vi o horror:
o elevador que a chata queria estava forrado com aqueles panos que
eles usam em mudanças
aquelas lonas que abrigam gerações e mais gerações dos ácaros mais resistentes
e dos fungos mais resistentes que a biologia, a genética e a botânica
foram capazes de produzir.

ainda perguntei pra ela: quer vir nesse?
ela disse não.

aposto que, nessa hora, o idiota pensou: "idiota".

1 comentários:

aline discini disse...

nossa, nunca pensei que eu ia ler um texto sobre velhinhas com tanta concentração...
conheci o Abismo, que abismo? faz tempo, lembrei dele hoje e achei o blog.
Cria uma página logo pra poder divulgar, é realmente muito excelente a sua escrita...
Parabéns!