18.8.09

Woodstock - 30 anos ( ou "alá nego fingindo que calculou a cagada de 30 anos atrás")




Foi entre os dias 15 e 17 de agosto do ano de 1969 que a terra rodou um pouco mais devagar para cerca de quatrocentas mil pessoas que se arriscaram a fazer aquele programa de índio que era sair de casa, ir pra uma fazenda atolada no barro, ver umas bandas tocando rock'n'roll e tocando a vida.

Exatamente como uma aquelas festas de que não espera absolutamente nada e, de repente, vira algo inesquecível, Woodstock entrou para a história com tamanha força e importância que o final da década de 1960 é marco histórico.

Pense na "era Woodstock", "geração Woodstock" e em tudo mais.
É assim que essa época da história da humanidade é conhecida.
Gente de todo mundo, ainda hoje, vai ao lugar onde a festa toda rolou, catar pedrinhas e levar pedaços de história pra mostrar para os filhos.
Fale de Live-Aid, fale de Lollapalooza - nada teve o mesmo impacto.

Neste fim de semana (nota: em 2004), a reportagem do jornal norte-americano Bufallo News foi até o lugar onde rolaram os três dias de paz e música e encontrou por lá um checo de 31 anos.
Nascido quatro anos depois e a uma distância maior que a de um oceano inteiro, Jakub Muller aproveitou sua passagem pelos EUA e quis visitar o lugar onde Woodstock rolou e ficar parado naquele mesmo local onde o palco esteve.
"Sempre quis estar aqui. Pisar nestas pedras, sabe?", diz ele na reportagem.
Sim, a gente sabe.
O que é legal que se diga é que Woodstock, mais uma vez, é um belo pedaço de parte pelo todo na história do rock.
E por quê?
Antes de mais nada: Woodstock foi um acidente.

Promotores incompetentes não conseguiram arrumar um lugar pra fazer um show decente e acabaram arrumando uma fazenda.
Uma fazenda pra criação de gado leiteiro, com bosta de vaca pra tudo que é canto.
O cachê era pífio e, mesmo assim, todas as bandas tocaram.
A infame a frase "Três dias chafurdando na lama? Quem precisa disso?", dita pelo líder da J. Geils Band ao se recusar a tocar no festival diz tudo.
A desorganização nos bastidores do show era tal que o falecido baixista do Who, John Entwistle, disse uma vez que, ao chegar lá, como faltava apenas três horas para o Who entrar no palco, resolveu tirar um cochilo.
Acabou acordando duas horas depois do que devia e, mesmo assim, ainda faltava seis horas pro Who subir ao palco.

O tempo era outro.

Aliás, os tempos eram outros.
Teria tido tudo pra dar errado, mas não deu.
Apesar de tudo, deu certo.

O que talvez surpreenda o mundo é que esse "apesar de tudo" que elevou Woodstock do barro e moldou nele um pedaço da história da humanidade foi que, ignorada a incompetência dos terceiros, tudo se resolveu ali, no palco, entre público e músico.
A música resolveu tudo.
Foi pra isso que quatrocentas mil pessoas entraram naquela fazenda, mesmo sem ter ingresso, mesmo sem saber o que ia rolar e mesmo sem saber quando nem como ia fazer pra ir embora dali.

Era só isso que elas queriam: música.

Country Joe MacDonald estava lá e tocou em Woodstock.
Ele diz que ainda hoje as pessoas perguntam pra ele como é que foi tocar naquele lugar e naquele momento da história.
"É relevante hoje exatamente como era relevante em 1969. Historicamente, politicamente e socialmente a batalha ainda está em andamento", diz ele.

Aquilo que se chama de "espírito de Woodstock" - percebe que não existe um "espírito de Live Aid" ou um "espírito de Lollapalooza"? - é tão indefinível quanto atual.
Quem diz isso é William McKeen, autor renomado e professor de jornalismo na universidade da Flórida.

Ele colocou seus alunos para correr atrás do assunto e estudar a época no curso de história de rock que ministra na universidade.

A principal pergunta é: pode rolar de novo?
A resposta mais comum é um "não" que já aparece antes mesmo do fim da pergunta.

Os tempos são outros.
Hoje em dia, existem grandes corporações e, acima da música, existe a indústria da música.
Hoje em dia tem show em que o ingresso é vendido pelo preço de um aluguel médio.
O pessoal da segurança é pago pra descer porrada no primeiro que tentar entrar sem pagar e não existe a possibilidade teórica de um festival ser feito quando já se sabe que ele vai dar prejuízo.
Woodstock deu um baita prejuízo.
Hoje não, mas no dia imediatamente anterior ao festival, os organizadores não acordaram pensando que haviam entrado pra história.
Depois de Woodstock, os organizadores podem ter acordado pensando em como é que eles tinham permitido que aquilo acontecesse, em como fariam pra se livrar da falência e prometendo pra mulher que nunca mais fariam aquilo.
A verdade é que eles desencanaram e relaxaram.
Os donos do circo foram dormir e deixaram seus macaquinhos fazendo palhaçada para o público.
Aconteceu que os macacos tomaram conta do circo e não pediram nada para o público. Eles chegaram e fizeram o que gostavam de fazer diante de um público que foi pra lá ver o que gostava de ver.
E, assim tudo deu certo.
Não havia, realmente, a necessidade deles por perto.
Não teve comercial na TV, não teve ninguém pedindo cinco bilhões de toalhas brancas e limpas pro camarim e não teve lucro nenhum.
Hoje em dia, quem tenta recriar esse cenário - e ainda têm a cara de pau de dizer que deu certo - são os mesmos donos do circo que já deviam saber que aquilo que deu certo em 1969 não foi por mérito deles e que, enquanto eles estiverem por perto, nunca mais vai acontecer outra vez.
Woodstock renasceu em duas oportunidades e a crítica fez questão de dizer que as semelhanças entre as duas novas versões e a versão original começavam e acabavam no nome.
"Se eles tentarem armar uma recriação disso, eles provavelmente estarão fadados ao fracasso", diz o professor McKeen, "Não seria nenhuma surpresa enorme caso algo parecido com isso acontecesse outra vez. Mas seria por acidente".

Sim.
Precisamos de mais acidentes felizes.


(é sim. é praticamente o mesmo texto dos 25 anos de woodstock, que eu publiquei no rockwave. mas vc não tinha lido, tinha?)

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