13.7.09

sobre eclipses e apocalipses




Não tenho certeza se isso foi em 93 ou 94, mas foi a sensação mais esquisita e mais despropositada que me deu.
Teve um eclipse.
Eclipse total.
Durante um tempo, o mundo ficou sépia e, depois voltou ao normal.
Enquanto ele estava sépia, eu me senti um macaco numa jaula que foi balançada.
Foi uma espécie de alarme falso do apocalipse.
Eu tava na faculdade e, por mais incrível que isso possa soar hoje, naquela época eu era fisicamente explosivo, como um cartoon humano.
No curto espaço de tempo em que o mundo ficou sépia, eu me pendurei em todos os lugares e corri.
Se meu corpo fosse propenso à meioses e mitoses, cada membro meu correria pra um lado.
Como organismo pluricelular que sou, o efeito foi parecido com aquele que se dá no urso Colimério, nos desenhos do Pato Donald – a cabeça e o quadril cismam em ir em direções opostas e, no fim, vai-se a lugar algum.

Lembrei disso quando vinha pra cá, pensando naqueles dias que foram os mais esquisitos que eu já passei na vida.
Foi exatamente no segundo semestre de 1995.
Meu avô Luiz, pai de minha mãe, morreu em julho de 1995.
No dia em que ele morreu, sem a menor idéia do que fazer, fui pra um show dos Velhas Virgens no Centro Cultural São Paulo.
Voltei de lá com o primeiro CD dos caras, autografado por todo mundo da banda.
Era a época que que os Mamonas Assassinas começavam a despontar e meu avô, português que era, não chegou a ouvir “Vira-Vira”.
Em setembro, eu ia conseguir meu primeiro emprego de verdade, o emprego dos meus sonhos – de estagiário na 89 - a Rádio Rock.
Eu estudava de manhã, almoçava com a TV no mudo, o som ligado e lendo jornal, vagabundeava de tarde até dormir, acordava com o Lulu Santos cantando o tema de abertura de Malhação, tomava um banho e ia trabalhar até dar uma da madrugada.
Eu tinha carteira de motorista, mas não sabia dirigir e nem queria aprender.

Entre uma coisa e outra, houve julho e agosto.
Que foi logo entre a morte de meu avô e o meu primeiro emprego, que me afastaria de vez da minha base permanente – que era o quarto dos fundos da casa da minha avó.
Eu não sabia que aquilo ia rolar, mas uma intuição me dizia pra ficar esperto.
Meus pais haviam falado de mudar de casa, de mudar pra longe, de ir morar lá no Clube de Campo do Palmeiras.
Eu não dava muita atenção pra nada daquilo, mas ouvia tudo.

De algum modo, eu sabia.

De algum modo, eu me sentia como naquele dia em que o mundo ficou sépia.
Só que, naquele dia, eu sabia que er um eclipse e não um apocalipse e isso me dava o direito de agir como um macaco, mesmo não sendo um macaco.
O que havia diante de mim naquele momento, com meu avô morto e eu sendo a principal referência humana que minha avó teve naqueles dois meses, era a iminência de um apocalipse, o que me solicitava a agir como um homem.
Um homem que eu não era.

A gente mudou de lá de repente.
Foi no dia 19 de dezembro de 1995.
Foi a última vez em que eu estive no apartamento 13 da avenida Lins de Vasconcelos, número 1944. (Só por curiosidade, minha última mudança de casa também foi feita num dia 19 de dezembro)

Eu ouvia o Kleiderman, aquela banda do Branco Mello dos Titãs, tocar no rádio e eles cantavam “Eu Não Quero Mudar” e soava parecido, embora eu não percebesse, à regravação de “I Don't Wanna Grow Up”, do Tom Waits, pelos Ramones.
Eu cantava aquela música, com a letra em português, entre dentes cerrados e lábis crispados, no banco de trás do carro, acompanhando o caminhão da mudança.

Nada mais foi a mesma coisa depois daquilo.
Só fui me acostumar a viver no Clube de Campo em dezembro 1998, quando consegui, pela primeira vez, tirar férias do trabalho e pude, pela primeira vez, arrumar o quarto onde dormia.
Meu avô havia morrido, os Mamonas haviam morrido, Chico Science havia morrido e fazia mais de um ano que eu não lavava meu carro.
O mundo havia morrido e havia nascido de novo.
Foi o melhor dos tempos.
E foi o pior dos tempos.

O que eu acho engraçado quando olho pra trás hoje é que, naquele eclipse de 93 (ou 94), em que deu a impressão que havia o pé de um gigante descendo pra nos esmagar a todos, eu fingi desespero e agi como um macaco.
Entretanto, quando o pé realmente desceu (embora não soubéssemos, já estávamos todos mortos no futuro) minha única reação foi ficar ao lado da minha avó tanto quanto pude.
Que fôssemos esmagados, mas que fôssemos esmagados juntos.

E não fomos.

Ela foi lambida pelas ondas do mar sem fim, numa quarta feira de cinzas, e levemente levada enquanto dormia.

Eu fui lá pro fundo do mar sem fundo, onde tudo era tudo escuro a ponto de você duvidar de sua própria existência e, lá, ouvi a Imperatriz de Neverending Story me dizer que “no começo, sempre é escuro”.
E daí, pra frente, fui reconstruindo tudo que tinha com o bem pouco que me restava até descobrir que não, não era pouco não.

Era eu.

E era tudo que eu tinha.

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