3.4.09

tentando fazer deus sorrir




Fico aqui, parado, olhando pra esse cinzeiro cheio, já pela terceira vez esta noite, e pra gaita azul vagabunda de marca “golden bird”. É essa gaita vagabunda que eu uso pra chorar baixinho, daquele jeito que é quase um rezar pra Deus dar o frio conforme o cobertor.
E aí, você me pergunta se eu acredito em Deus?
Não só acredito, como vejo Deus.
E vejo como Rei Lear - e isso você vai ter que engolir, uma vez que eu não sei como explicar como tal coisa se deu enquanto mecanismo ancestral de incrustração de arquétipos no inconsciente coletivo.

Rei Lear é Deus.
Aceite.

Lemmy também é.
Aceite isso também.

Por ver Deus como Rei Lear, tenho a visão de mim mesmo diante de Deus.
Eu sou o Bobo de Deus.

Você também é, se você quiser ser, mas eu sou porque sei que sou e porque, pra quem tem Rei Lear como Deus, não há outra alternativa a não ser esta: a de ser bobo a ponto de ser Bobo.
Isso tem a ver com o jeito que eu rezo.

Ó.

"O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas iniqüidades (a correção botou trema, não foi culpa minha) dos egoístas e a tirania do homem mau. Abençoado aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, guiam os fracos por entre o vale das sombras, porque ele é um verdadeiro guardião dos irmãos e um recuperador de almas perdidas. E eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa àqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que meu nome é 'Deus' quando minha vingança recair sobre você".
Isso é Rei Lear.
tááááá....tá-TÁ!.
Eu sei. É Jules, em Pulp Fiction, eu sei.

Mas é Rei Lear também.

É aquela porra de deus bravo do antigo testamento, que a gente só lembra dele quando ele grita desse jeito.
O deus bruto.
O Evangelho, segundo Quentin Tarantino.

Quando Deus faz isso com o mundo, que chacoalha tudo, que dá aquele calor-frio na nuca e a gente pensa “caralho, e se...?”.

Não pensa.

Nessa hora, é melhor tocar essa gaita vagabunda e deixar minha cabeça vazia o bastante a ponto de saber o que pedir.

Isso é não pensar.

É ir tocando e chorando primeiro tudo que for pipipi e ficar só com o que é importante e, daí, quando sobrar só mais uma coisa, pronto: entendi.

E quando Lear se entretém com o som da gaita, sorri e pergunta se há alguma coisa que Ele possa fazer por mim, daí, sei responder.

Leio eu a Ele o poema do Drummond pra que Ele faça idéia da gravidade do assunto.
Ele é o Rei do Mundo.
Ele pode fazer isso.
Então, peço a Ele que cuide dela e de todos que forem dela.
Que tome conta, por favor.
Por favor: tome conta.

Fico aqui chorar com essa gaita azul com tempo sem hora tentando, de todo jeito que puder, fazer brilhar essa luz que não se apaga nem quando sopra o vento e chuva desaba.

1 comentários:

Joice Viana disse...

Eu aceito Rei Lear, mas Lemmy, você vai me desculpar: só se tirar as verrugas.
Eu queria ter um desses 'pronto: entendi', mas não tenho gaita. provavelmente se tivesse eu não saberia tocar. Não, tocar eu saberia, só depende das mãos e do tato. Eu não saberia tirar som dela. Ou talvez tirasse algo entre um apito de trem e um gato sendo girado pelo rabo, mas deus ia correr tanto que não ia me ouvir at all.
Por que esse tanto de letras maiúsculas e pontos?