14.4.09

reveillon (edição 2004)




Dizem que tudo que você faz no primeiro dia do ano, se reflete pelo resto dele.

É uma espécie de prólogo em que você coloca o máximo do que você sabe ser e, se imprimir com bastante força, talvez as tintas escorram, tingindo os outros trezentos e sessenta e cinco dias restantes - para anos bissextos, como era o caso daquele 2004 que crescia embaixo de nossos narizes.

Estou, parado de frente para o mar, olhando o mais longe que posso, em um ano que começou chorando.

Pouco antes da meia noite do dia 31, vi gente jorrando enxurradas de lágrimas enquanto cantava "viveeeeer e não ter a vergonha de ser feliiiiiz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz".
Homem barbado.
Tava meio bêbado, é verdade, mas, dali onde eu estava, pensei até que fosse eu.
"We’re absolute begginers"
Não era eu.
Juro.

Praia do Curral, Ilhabela:
(Eu estou vivo)


Tem tanta champanhe vagabunda nos meus olhos que eu devo estar chorando lágrimas gaseificadas.
Eu não sei bem porque isso começou.
Acho que a culpada foi aquela última que morre, a esperança.
Achei minhas esperanças muito boas, sabe?
A melhor de todas as esperanças é aquela que diz algo parecido com "tomara que continue assim".
Tenho que admitir que essa esperança em específico, misturada com aquele abraço agradecido que eu estava dando em mim mesmo, caiu muito bem ao som de "Imagine", do John Lennon, que tocava nos alto-falantes do Bar do Papagaio.
Se você cruza um papagaio com uma girafa, você tem um auto-falante.
Não sei como o pessoal do Bar do Papagaio conseguiu a girafa, mas, era um fato: eles tinham alto-falantes.

Agora, sob a luz da razão, tudo aquilo parecia um comercial de TV bem babaca, mas, ali, naqueles primeiros minutos de ano-novo, não.
Aquilo era indisceptável, sincero, verdadeiro e recendia paixão.
A razão faz a emoção parecer ridícula.
Lá no passado, a emoção se vinga, rindo da razão sem se dar ao trabalho de explicar o motivo.
Eu olhava para o mar.
Foi assim que eu me distraí.

A missão era simples: pular as tais sete ondinhas.

Mas eu fiquei tão encantado com o mar (pipipi)...

Paralisado, ficava pensando em como é que as pessoas, antigamente, decidiam que aquele pontinho ridículo, aquela imperfeição da linha do horizonte, era um navio e não um cocôzinho do Sol.

Aí a onda vinha e me lambia as canelas.

Um pedido a menos, trouxa.
(Se eu fosse índio e visse um daqueles navios portugueses, que porra ia fazer?
Seriam os deuses astronautas?
Melquíades e todos os ciganos de "Cem Anos de Solidão"?
A novidade veio da praia, aquele paradoxo estendido na areia.
E quando eram os pescadores?
E aqueles povos que mandavam navios que ficavam meses no mar?)
Ôpa... Pés frios.

Dois pedidos a menos, trouxa.
(A molecada devia ficar toda aqui, na beira do mar, brincando na areia e correndo pra chamar os adultos assim que o primeiro cocô do sol fosse avistado no horizonte.)
Canela.
Perna.
Joelho.

Três pedidos já foram.
Trouxa.

Como é o nome daquela música dos Velhas Virgens que diz que "o duro é quando a água gelada bate no saco?"

Quatro pedidos a menos, trouxa.
Claro que devia ter aquele moleque avoado que corria com pés de vento pra casa dos amigos pra avisar que tinha barco chegando e, quando voltava para ver, tinha que jurar que era verdade, porque ninguém, além dele, via nada. E ele mesmo, naquele momento, não via muita coisa.)

Cinco já se foram, trouxa.
Olha o navio!
Puta naviozão gigante da porra!!
Aposto que o namorado da Bartira tá dentro dele e aposto que ela vai ficar o dia todo, chorando aqui na praia, esperando ele desembarcar.
Aposto como chegaram as ervas do Ptolomeu e ele vai fazer aquele chá maluco que deixa todo mundo doido, quanto for a a hora da festa do desembarque.
Vai ter perfume com cheiros novos e eles vão deixar as mulheres ainda mais bonitas.
Vai ter motivo para acender a fogueira e dançar a noite toda.
Vai ter comida, vai ter luz e vai ter música.
Vai ter mágica.
Sonho.
Tomara que tenham trazido o remédio do Tomasino.
Aquela menina dos olhos tristes bem que podia passar por aqui outra vez.
Tomara...
É muito sonho pra um navio só.
As vezes, dá a impressão de que os sonhos transbordam, caem no mar e chegam antes do navio. Vão flutuando na água e aparecem perambulando na praia com o sol da manhã, aquele que deixa o oceano roxo.
Minha mãe disse que a gente nunca sabe o que o navio traz e que é isso que faz as pessoas festejarem antes mesmo de ter certeza de que existe um navio, de que ele está vindo mesmo para cá...
A possibilidade de navio faz os sonhos se remexerem no ninho onde eles todos dormem.
Eu acho que vi um navio.
Peraí... é sério!
Eu vi um navio.
Eu juro que vi, ele estava lá, lá no horizonte.
Tinha fumaça e tudo.
Eu juro.
Ele estava bem ali, no horizonte.
Ele trazia tudo.
Tudo.
Trazia sonhos de todas as outras pessoas, porque só os meus não teriam graça nenhuma.
O bom do navio é que ele deixa todo mundo remexendo seus sonhos por dias.
Quanto maior o navio, mais sonhos ele remexe.

É bom você resumir tudo em um pedido só, trouxa, porque é só ele que você vai ter.
(Adoro esse Dirty Harry que fala dentro da minha cabeça.)
Eu estou, parado de frente para o mar, olhando o mais longe que posso, em um ano que começou chorando.
E eu não sei se estou olhando pra dentro ou pra fora.
Eu entendo, afinal, porque eu gosto tanto de "Louie Louie", em todas as suas 900 mil versões.
Ela fala disso, de esperança e saudade, só que do ponto de vista do navio, do marinheiro que foi até a Jamaica e a, em pleno mar, ele sonhava que sentia o perfume da rosa no cabelo da namorada que, em breve, ele ia ver de novo.

Tem uma música do Sting que se chama "Love Is The Seventh Wave".
A sétima onda é sempre a mais forte de todas.
Quando eu pulo, meus chinelos ficam presos na areia e eu tenho que sair correndo atrás deles.
A oitava onda, bem mais forte que a sétima, vem e me pega de cheio - pelas costas.

"Quero um porta-aviões", resmungo, tirando areia de dentro da boca.

Mesmo que ele nunca chegue e deixe meus sonhos com coceira na sola dos pés pra sempre e sempre, amém.

Feliz navio.

Quer dizer: Feliz ano novo.

Olha o mundo e me dá a sua mão.
Vamos pro fundo.


(publicado originalmente em janeiro de 2004 na "coluna do meio", do rockwave)

1 comentários:

trombone com vara disse...

Eu estava também nesse curral. Completamente preso em minha retidão vitoriana. Não bebi, não fumei e não transei. Observei voce brincar em seu transe grouchomarxiano. Observei minha menina ficar alegremente bebada e girar como pião gritando que jamais fora tão feliz. Observei um monte de gente pular e rir. E nessas observadas esqueci de desejar. O texto, teu, é do cacete.