10.4.09

Quando Eric Clapton quase morreu de amor






Se você tiver que escolher uma mulher pra invejar, por favor, não seja modesta: inveje Patty Boyd.

Te dou dois bons motivos pra isso:

Motivo 1 – “Something”, aquela música que Frank Sinatra disse ser a maior de todas as canções de amor (and, if Frankie says WAR, hide yourself), foi feita pra ela.

Motivo 2 – “Layla And Other Assorted Love Songs”, o disco mais filha da puta de bom que existe no mundo, foi composto pra ela.

Sobre “Something”, não tem o que dizer.
Frankie, frankly, disse tudo.
Talvez, quando George Harrison a tenha tocado pela primeira vez, Patty tenha olhado para ele e, adiantando Jerry Seinfeld em décadas, tenha dito: “Oh, George!”

Com “Layla” e suas canções de amor sortidas e sofridas, porém, a história é outra.

Clapton estava na sede de fazer blues.
Coloque-se no lugar dele, porra.

Ele estava aparvalhadamente apaixonado pela esposa (nem namorada e nem amante) de seu melhor amigo, George Harrison.
Na época, na virada de 1969 pra 1970, ele havia lido um livro chamado “Layla And Majnun” que contava a história real de um cara que enlouquece porque não pode se casar com uma mulher – a tal Layla – que se casa com outro. Então, ele abandona a aldeia de beduínos onde vive e passa a vagar pelo deserto, gritando poemas para Layla e escrevendo na areia com seu cajado.

Layla, pra Eric Clapton, era Patty Boyd.

Clapton conheceu Patty nos bastidores de um show do Cream e, na hora, ele achou que ela era a coisa mais linda do mundo e, conforme foi conhecendo melhor, percebeu que havia limites pra beleza no mundo, mas dela não havia não.
Entre conhecê-la e começar a gravar “Layla”, Clapton tocou com os Beatles no “White Album”, montou o Blind Faith com Steve Winwood e, finalmente começava a firmar raízes em na sua casa, em Hurtwood Edge.
Foi quando ele compôs “In The Presence Of The Lord” e pediu pra Steve (você não quis dizer Winword?) cantar.
O cara ia cantar e Clapton ficava palpitando, até que Steve mandou tomar no cu e disse “canta você mesmo” e, por aí, acabou o Blind Faith.

Teria até rolado se Clapton não tivesse se metido com o povo do Bonnie & Delaney.
Delaney era meio que um chato religioso que, quando cantava, fazia a mesma coisa, só que de modo irresistível, chegou pra Clapton, no meio de uma jam de viagem de ácido, disse que Deus tinha dado pra ele um dom e que ele devia tocar e cantar e liderar sua própria banda. “Se você não usa, Deus tira”, dizia Delaney.

Depois disso, claro, Delaney pegou Clapton pelo braço e os dois foram ver de onde as músicas vinham. Em sua biografia, Clapton diz que Delaney havia tirado dele algo que ele não sabia que podia contar e que foi ali que ele, de fato, começou sua carreira solo.
Ao mesmo tempo que ia se acertando com a própria voz, que antes parecia tão estranha, Clapton também percebia que aquela mulher não saía de sua cabeça.

Patty Boyd. Patty Boyd. Patty Boyd. Patty Boyd. Patty Boyd.

Por causa de Patty, ele se separou de Charlotte, com quem viveu por dois anos.
Na cabeça dele, Charlotte estava entre ele e Patty e, portanto, devia cair fora.
Depois, veio Alice, com quem Clapton realmente tentou, de verdade, mas não deu.
Ele achava que jamais teria a menor chance com Patty, mas, em contrapartida, achava que qualquer outra mulher seria perda de tempo, porque ele jamais amaria alguém como amava Patty.
Era um amor que ele escondia.
Era uma vergonha e um pecado.

George quase ajudou sem querer.
Uma noite, ele quis pegar Paula, irmã de Patty, e tentou dar um jeito de fazer com que Clapton ficasse com sua esposa, enquanto ele ia pegar a irmã dela.
Não deu certo, porque se Deus de verdade já é burro, o Deus-Clapton fez o favor de cagar tudo ao pegar, ele mesmo, a irmã em questão.
Burro, sim, mas fazia sentido.
Era um jeito de ficar próximo, ao menos.
Faz sentido, mas, ainda assim, é burro.

Foi quando Carl Radle, baixista da Bonnie & Delaney & Friends, ligou e, no mesmo fôlego, comunicou o fim da banda e perguntou se ele não queria tocar guitarra com ele, Jim Gordon (não o comissário, o baterista) e Bobby Whitlock, tecladista.
Com Bobby, Clapton já vinha tocando e os dois brincavam de Sam & Dave nos vocais,
Eles começaram a fazer jams intermináveis em que se mantinham em pé equilibrando a dose entre coisas pra derrubar (Mandrax) e pra levantar (pó).
Pra manter o corpo em pé, as refeições eram na base de bacon, ovo e salsicha.
Um eterno café da manhã.
Só que open-bar.

Aí, o plano de Clapton passou a não parecer tão burro.

Paula vivia lá e, logo, George começou a aparecer, com Patty.
Uma noite, os dois – Clapton e Patty – saíram, dividiram uma garrafa de vinho, ela contou que seu casamento não andava lá muito bem e acabou que rolou um beijo.
Aquilo foi tanto pra Clapton que, na volta, ele capotou sua Ferrari Dino e não sabia o que fazer. Não tinha documentos do carro, não tinha documento nenhum e estava bêbado. Achou que era melhor fugir, mas... pra onde, José?
À beira da estrada, achou um portão, que abriu e descobriu ser um cemitério. Ficou um tempo sentado sobre um túmulo até decidir que era hora de parar com criancice e voltar pra onde o carro estava.
Clapton, cheio de coragem, decidiu assumir.
“Você já amou uma mulher, de um tanto, que você treme de dor? Você já amou uma mulher, de um tanto, que é uma vergonha e um pecado?”, ele cantava baixinho aquela velha música de Billy Myles enquanto esperava que Bobby Whitlock aparecesse pra buscá-lo no hospital.

Daí, Clapton passou a aparecer na casa de George com tamanha freqüência, que acabou tocando no disco dele, “All Things Must Pass”.
Na real, o que ele fazia era passar lá na frente o tempo todo, na esperança de um dia, encontrar Patty sozinha.
Em uma palavra?
Stalker.

Quando fizeram o primeiro show, ninguém sabia como chamar a nova banda.
Bobby dizia que era “Eric & The Dynamos”, Clapton dizia que era “Dell & The Dominos” e o cara que anunciou confundiu tudo e o nome da banda acabou ficando como “Derek And The Dominos”.

Dessa noite, Clapton lembra que foi se consultar com Doctor John, que havia acabado de tocar e tinha a sua reputação como um voodoo doctor. Clapton acreditava naquilo porque, naquela mesma noite em que Delaney havia dito aquilo de “use seu dom senão Deus tira”, os dois encontraram com Doctor John que mostrou uma música pra eles, chamada “You Givin’ Me The Push I Need”, e pareceu ter feito aquilo de propósito.
Chegou e pediu um remédio. Doc perguntou que tipo de remédio. Clapton disse que era uma “poção do amor” e Doc pediu pra que ele elaborasse mais. Sem dar nome aos bois, Clapton contou que estava a fim de uma mulher casada e que sabia que ela não era feliz e que queria mandar um “vou tirar você desse lugar” pra cima dela. Doc deu a ele um amuleto e instruções de uso, que Clapton seguiu à risca.

Jamais me atreveria a dizer se o que veio primeiro foi a galinha ou o ovo, mas caso foi que, semanas depois, Clapton deu de cara com Patty outra vez, numa festa de seu empresário, e, outra vez, com pecado e vergonha, sentiu sua carne arder. Apalpou o amuleto no bolso, virou o que lhe restava de bebida e foi direto em George dizer “olha, cara, eu tô a fim da sua mulher”. George se sentiu ferido, mas não deu o braço a torcer. Fez piada e brincou que era John Cleese, do Monty Phyton.
No fundo, como qualquer outra pessoa, George não sabia o que fazer.

Clapton, então, compôs “Layla” e mostrou pra Paula.
Disse que havia feito pra ela.
Paula, que já sabia bem o que vinha rolando, virou a cara e resmungou um “o seu cu que você fez isso pra mim” e passou a morar com Bobby Whitlock.

Obcecado por Patty, Clapton não parava de tocar.
Não podia e nem queria.

A banda em toda foi pra Miami, na Flórida e, morando num hotelzinho de merda, passavam o dia chapando o coco, tocando e fazendo merda.
O problema era um só: tirando “Layla” e “I Looked Away”, não havia mais nada no repertório.
Daí, veio a astúcia do produtor, Tom Dowd, que sacou que Clapton tinha vontade de conhecer Duane Allman, dos Allman Brothers.
Como havia trabalhado com os Allman Bros., Dowd também sabia que Duane pagava um pau pra Eric Clapton e morria de vontade de tocar com ele, desde a época dos Yardbirds.
Rolou que Dowd armou um encontro entre os dois e, no meio de um show dos Allman Brothers, Eric Clapton apareceu e foi levado bem pra frente do palco.

Quando eles chegaram no show, os Allman Brothers já estavam no palco e Duane tava tocando de olhos fechados, com o rosto voltado pra cima e, quando desceu a cabeça e foi lentamente abrindo os olhos, deu de cara com Clapton.
Seus olhos se arregalaram, suas pupilas encolheram e Duane travou completamente, sem conseguir tocar mais nenhuma nota e sobrou pra Dickey Betts tapar os buracos que iam ficando nas músicas Ele achou que Duane havia quebrado uma corda ou algo assim.

No dia seguinte, os dois se encontraram no estúdio.

O planejado era que Duane tocasse só em uma ou outra música, mas o inevitável aconteceu e ele tocou em todas.
Eric Clapton sempre rendeu muito mais quando tinha alguém mordendo os calcanhares dele na outra guitarra e, pra esse trabalho, nunca mais achou outro parceiro como Duane Allman.
A única pessoa com quem Clapton talvez tivesse mais trabalho seria com Hendrix, mas, embora ambos fossem amigos a ponto dessa possibilidade ter existido, Hendrix era o lone-rider da guitarra. Com ele, não precisava de mais uma.
Duane, por outro lado, era como um irmão.
Os dois se deram bem pra caralho e, quando tocavam, os dois tocavam por telepatia como dois cavalos com patas de fogo, bufando e mordendo um o pescoço do outro, em uma corrida filha da puta através de uma planície aberta até o fim do mundo.
Só que Duane era dos Allman Brothers.
Isso implicava em dizer que o seu “irmão” já tinha uma família.

As gravações foram sensacionais.
Tem um caso que vale a pena contar, pra se ter uma idéia de como era.
Sam Samudio (o tal Sam The Sham, dos Pharaos, de “Wooly Bully”) estava gravando no estúdio ao lado deles e, através da parede, ouviram a banda dele começar a tocar “Key To The Highway” e, imediatamente, alguém puxou o “um, dois, três, vai” e Dowd, gritou pro engenheiro de som “dá REC nessa porra”.

Pra fazer as músicas, Clapton já se levava menos a sério e tinha aprendido a lição com Delaney: “tudo vira música”.
Com Bonnie & Delaney, fez uma música sobre uma garrafa de vinho tinto.
Para Patty, ele fez uma calça boca-de-sino virar um blues que mendiga amor aos berros.
Foi tudo para Patty.
Até as músicas que foram regravadas eram pra ela.
Eu que não gostaria de estar na pele de George Harrison quando ouviu Clapton cantando “But you just love that woman / So much it's a shame and a sin./ You just love that woman / So much it's a shame and a sin./ But all the time you know / She belongs to your very best friend” em “Have You Ever Loved a Woman”.

Pior, só se você estivesse na pele de Eric Clapton na série de infortúnios que se seguiram.

Começou quando ele pegou o disco pronto e ligou pra Patty.
“Você não quer vir aqui em casa, tomar um chá ?”.
Ela foi.
Ele tocou o disco todo pra ela.
Começou com “I Looked Away” e foi até “Layla”.
Quando estavam na última música, “Thorn Tree In The Garden”, Clapton olhou pra Patty e percebeu que, com toda aquela intensidade que o disco tinha – que ELE tinha – só podia dar no que deu.
Ela achou aquilo comovente, sim, claro – até uma samambaia se emocionaria tal coisa – mas aquilo, e daquele TANTO, fez com que Patty tivesse medo.
Ele tentou a última cartada: “olha, se você não vier, eu vou cair pra heroína e vai ser todo dia”.
Patty sorriu como quem pede desculpa por as coisas serem como são.
Naquele momento, ele sacou que não tinha mais pra onde correr.
Mesmo por que sua ameacinha era de mentira: ele já tinha caído pra heroína e, faz tempo, era todo dia.

A vida dele, ele podia ver, tava um rebosteio só.

Primeiro, Hendrix morreu – que foi um baque que Clapton sentiu pra caralho – oito dias depois deles terem gravado “Little Wing” pro disco.
Depois, a turnê da banda, que virou um festival de drogas e, como era de se esperar, terminou com aquelas brigas que são tão idiotas quanto irrevogáveis.
Daí, como se nada disso não fosse o bastante, recebeu uma ligação dizendo que seu avô – que o havia criado como pai – estava internado com suspeita de câncer.

Clapton, então, se trancou em Hurtwood e passou a não receber mais ninguém.
O portão da frente de sua casa ficava sempre aberto, mas, quando as pessoas apareciam por lá, ele se trancava na parte de cima da casa e fingia que não tinha ninguém em casa.
Saiu para participar do Concerto para Bangladesh, organizado por George, mas foi como se não tivesse ido. Passou metade do período de ensaios em crise de abstinência de heroína e, quando foi tocar, era o mesmo que não ter ido.
Tentou fazer tratamento de choque e não rolou.
Pete Townshend tentou intervir, organizou um show e, pela primeira vez, Clapton mostrou-se disposto a colaborar.
Foi internado em um programa de reabilitação em que largou a heroína, mas, por outro lado, mergulhou ainda mais fundo no álcool.

Foi só em julho de 1974, quando soube que Patty e George haviam se separado, que Clapton tomou coragem e ligou para a casa de Mick Fleetwod. Patty estava morando lá com uma outra irmã, que era casada com Mick.
Clapton a convidou para que viesse ao show daquela noite e ela foi.

Ele jura que nunca na vida cantou “Have You Ever Loved A Woman” com tanta propriedade como naquela noite.

Eu acredito.

1 comentários:

Joice Viana disse...

Um texto tão legal e você mete uma buceta nas tags. Tudo bem, é tudo culpa da buceta mesmo. Aliás, devia ser uma senhora buceta... Pronto, já falei bucetas suficientes (y)