16.4.09

maradona?




Faça sua lista.
Quem nunca teve um apelido, não teve vida social.

Hoje em dia, todo mundo se dá apelido em qualquer rede social, mas, naquela época, beirando os dez anos de idade, apelido era coisa séria.

Às vezes é porque o professor erra o seu nome, te chama pelo nome errado e é uma garantia segura que, em tempos de orkut, facebook e i book your face, isso vai livrar sua cara.
Por isso que não tem nenhum pessoal da ACM na minha rede de relações.
Porque o idiota do professor leu o “Prior” do meu nome como “Priotto” e assim ficou.
Tinha um Jacques também, que virou Ajax e ter nome de produto de limpeza foi uma sujeira muito maior.

Em Poços de Caldas, pegou o Pica Pau. Porque toda vez que ligavam no hotel pra ver se podiam passar lá pra gente sair e beber, eu tava fazendo a mesma coisa: assistindo Pica Pau na TV.

O que mais pegou e é aquele que eu tenho que conviver até hoje é “Maradona”.
O Igor, por exemplo, é meu melhor amigo e não me chama de outra coisa que não “Maradona”.

E o apelido é velho.
Chegou pra mim antes da Copa de 86, quando Maradona se consagrou como o melhor do mundo. Foi mais perto de 82, quando ele deu aquela voadora no Dirceu e eu não gostava nem um pouco de ser chamado assim.
E foi obra do Pinha – ele mesmo levava um apelido que era um diminutivo tosco de seu sobrenome. E levava mais um, Aurora, por causa da vinícola Aurora, que nos forneceu vinho o bastante pra que passássemos a chamá-lo de Flavícola Aurora. Afinal, Flávio ainda é o nome dele.
Maradona apareceu porque, num belo dia, eu decidi descer pra jogar bola com short preto e camisa listrada de azul e branco.
Imagina você que uma simples escolha de roupa pra ir jogar bola pode fazer diferença na sua vida inteira.

Antes que eu bombasse a oitava série, meu apelido era Jai – pronuncia-se “djái” – que era o menininho que era uma espécie de Robin pro Tarzan.

Depois, o Romildo, no teatro, resolveu que só ia me chamar de "Boca Larga", "Bocão" ou só de "Boca".

Por causa da peça "Fernando em Pessoa", que a gente montou e em que eu fazia os poemas mais endemoniados do Álvaro de Campos, as meninas do magistério, mas precisamente a Patty, que viria a ser minha irmã de sangue, passou e me chamar de "Animal", por causa do Animal dos Muppets, que é inspirado no Keith Moon e, por pouco, não ganha como meu apelido preferido entre todos aqueles que não pegaram.

Na época do cursinho, algum filho da puta achou que eu era parecido com o Raí.
Aquilo só durou somente um ano e, quando eu entrei na faculdade, graças a Deus, morreu.
Talvez porque as pessoas enxergassem melhor por lá.

Mas o melhor de todos os apelidos foi o Clebinho que pegou no ar quando a gente tava no primeiro colegial.
Cara que sabe dar apelido pros outros é genial e o Clebinho era um desses.
Tinha sido ele que tinha mudado o apelido da louca da Steve Michaels pra Steve Bacons.
E tinha também descoberto o óbvio: que o Toninho era a fuça do Zé Carioca.

Pra mim, parceiro no crime, a coisa foi fina.

Foi naquela época logo antes de terem ameaçado a mim – e ao Clebinho também – de expulsão.

Naquela época, eu sentava lá no fundo, bem no cantão, perto da janela.
Sempre que rolava alguma coisa, era de lei o professor chamar pelo número 25, que era eu, e completar com um “quer vir sentar aqui na frente, por favor?”.

O que ele fez foi uma piada fonética e, logo que isso – de me chamarem pra sentar lá na frente –rolou de novo, na aula do Salvador, de Química, ele passou a me chamar de Kevin.
E eu: “Kevin? Por que Kevin, caralho?”.

Na época não havia ainda um Kevin Arnolds pra me servir de referência, mas eu tinha assistido “Silverado” e Kevin me remetia a Kevin Kline, que era o herói que eu queria ser no filme.

Foi aí que ele me esclareceu: “Porque é assim que todo professor fala pra você: número 25, o senhor KEVIN sentar aqui na frente?”.

E esse – justo esse – foi aquele que nunca pegou.

Maradona, no entanto, continua até hoje, por causa do cara da foto ali em cima, o Pinha.

E, pensando bem, tudo bem.

1 comentários:

Bola Quinan disse...

sensacional...hahahahahaha