22.4.09

AZUL DA COR DO MAR

(perfil de vitor marçal que escrevi para a edição 41 da revista go outside)






PRÓLOGO


O celular vibra no bolso quando eu já estou dentro do táxi. “Encontrar Vitor Marçal”, ele dizia - como se fosse preciso. O motorista fica curioso em saber por que diabos eu mexo tanto na mochila e acabo contando pra ele que estou indo fazer uma entrevista com Vitor Marçal, surfista, remador e salva-vidas no pior lugar do mundo pra ser salva-vidas – a baía de Waimea, no Havaí. Ele me diz um “deixa eu te contar uma coisa” e eu recosto no banco porque, na mitologia urbana, taxistas e barbeiros são dotados de verdades supremas que nos são lançadas como pérolas, mas só quando fazemos por merecer. E eu não sou cara que despreza mitologia, seja ela urbana ou não.

UM BRASILEIRO NA PRAIA DE EDDIE AIKAU


Dizem que o jeito mais apropriado de se começar a conhecer um homem é conhecer sua casa. No caso de Vitor Marçal, a coisa ficava difícil. Faz quase 20 anos que ele mora no Havaí. Por outro lado, embora eu nunca tenha ido para o Havaí, Waimea Bay tem andado povoando meu imaginário por causa do livro “Eddie Would Go”, de Stuart Holmes Coleman. Um livro fascinante que conta a história de Eddie Aikau, lendário surfista havaiano que fez parte da primeira leva de salva-vidas especialmente contratados para trabalhar em Waimea Bay.
Uma coisa que entendi, logo de cara, é que Waimea é um sonho dentro de um sonho.
É uma obra prima esculpida pelo mar e pintada de azul no North Shore da ilha de Oahu. Por outro lado... quanto do azul daquela baía não são lágrimas de parentes das vítimas que ela não fez? Deus deu ao mar o perigo e o abismo, mas, em nenhuma outra parte do mundo, o céu encontra melhor espelho que em Waimea Bay.
Waimea Bay era praia de Eddie até o dia 17 de março de 1978, quando desapareceu no mar tentando buscar ajuda para um barco que naufragava.

Hoje, Vitor Marçal é o cara que cuida da praia de Eddie como se ela fosse sua filha.

VITOR MAR+SAL


O táxi pára no lugar marcado e Alessandro Matero, o Amendoim, que foi quem intermediou o encontro, me recebe com seu sorriso largo. Amendoim coordena os treinos de canoa havaiana na raia da USP, em São Paulo. Ele e Vitor Marçal são amigos de longa data e, no começo do ano passado, foram campeões na tradicional travessia do canal que separa as ilhas de Oahu e Molokai, que é a prova mais difícil do mundo pra canoa havaiana. Ele diz: “Esse é o Vitor”
Sei que às vezes é injusto deixar se levar por uma primeira impressão, mas a que eu tive foi muito clara. Eu estava diante de um homem capaz de falar em ações muito mais que em palavras.
Olhar direto nos olhos de Vitor Marçal é como olhar para o fundo do mar. Existe ali uma tranqüilidade que é preciso saber entender. É um olhar infinito, de uma pessoa que, por força da profissão, é obrigada a tentar prever o imprevisível em decisões atualizadas segundo a segundo. É o olhar de quem precisa ser calculista diante do imponderável.
Vitor, então, me conta que isso não é exatamente tranqüilidade – está mais para prontidão. Essa prontidão é um item obrigatório em Waimea Bay, onde qualquer vaca te joga pra baixo d´água, te mantém lá embaixo até os pulmões gritarem por oxigênio e a cabeça começar a trocar garrafas vazias com a mão fria da morte. Surfar em Waimea Bay é como reverenciar o espírito ancestral do mar e essa experiência pode ser o céu, mas também pode ser o inferno. Caso seja o inferno, Vitor Marçal é sua esperança de voltar à terra.
Ele é o cara que personifica o antigo provérbio havaiano que diz que a gente nunca pode dar as costas pro mar.
“As pessoas gostam de provar que não tem medo do mar. Não há quem não tenha medo do mar. É uma força da natureza e você não domina, nem mesmo quando você mais tem a impressão que domina. As pessoas perguntam se eu não tenho medo... Na realidade, há um certo medo, mas também há a confiança. O medo mexe com a sua confiança e o medo faz você cometer erros. Aí, você tem que ter autoconfiança pra se envolver naquilo eu você vai se envolver. É o jeito que você se coloca diante do eu está acontecendo com você”, diz ele.
Imediatamente, lembro do caso de Titus Kinimaka, que, surfando em Waimea, foi atingido pelo lick de uma onda que quebrou bem em sua perna com tanta força que partiu ao meio sua prancha e descolou seu fêmur do resto do corpo.
Do mesmo modo que quem entra na água é pra se molhar, quem surfa em Waimea sabe que pode se quebrar.

NASCER & MORRER NO MAR


É.
Waimea mata gente.
Ninguém – nem bombeiro ou quem quer que fosse – tinha a manha de fazer resgate por lá. Em novembro de 1967, depois de uma ressaca histórica, um bombeiro sugeriu que se construísse um imenso monumento que lembrasse um túmulo e, cada vez que alguma pessoa morresse, era só afixar uma plaquinha com o nome do morto e a data. A pressão pública fez com que as autoridades dissessem “sim, está bem, vamos contratar salva vidas” e passaram a bucha para o ex-nadador olímpico Bill Smith, achando que ele jamais seria capaz de encontrar alguém maluco o bastante para aceitar um trabalho desses. Só que Bill tinha uma idéia em mente e recrutou dois surfistas de ondas grandes: Butch Van Artsdalen e Eddie Aikau.
Naquela época, Vitor Marçal tinha acabado de completar três anos de idade e se alguém encontrasse a mãe dele e dissesse a ela que, em questão de trinta anos, o piá seria o anjo da guarda daquele paraíso na terra, ela jamais acreditaria. Nas poucas ocasiões em que a família ia à praia, geralmente no fim do ano, a mãe nunca deixava que o filho fosse muito longe mar adentro. “Minha mãe dizia: ‘não vai no mar que você morre, é perigoso’. Eu tive que tirar isso de dentro de mim, porque eu gostava da água. O medo era dela porque ela não sabia nadar”, diz Vitor. “Se ela soubesse o que eu faço hoje...”.
Vitor nasceu no dia 25 de outubro de 1964, no mesmo dia que Pablo Picasso e Pelé.
Ele diz que nunca jogou bem futebol, mas acha o máximo ter nascido no mesmo dia que Pelé, e se diverte por ter nascido no mesmo dia que Picasso por que também arrisca suas pinceladas. “Quando eu soube que tinha nascido no mesmo dia que Picasso, pensei ‘Pô, a gente tem alguma coisa em comum’ (risos). Porque eu pinto também”, diz Vitor.
Quando tinha 10 anos, Vitor perdeu o pai e, por cinco anos, viveu em internatos. Morou com amigos do pai, com a mãe, com a avó e, antes de entrar na faculdade, já morava sozinho. A paixão por esportes já existia e virou uma forma de dialogar consigo mesmo. Era uma maneira de estar livre – estando sozinho. Vitor diz que sentia uma admiração enorme por alguém que era bom em algum esporte e que essa admiração se tornava uma espécie de ciúme e, desse ciúme, nascia uma vontade de ser igual – se não melhor! – que esse alguém. Você acha que você está competindo com alguém e, de fato está. Só que é sempre com o mesmo alguém: você mesmo. Foi assim, que, num teste de educação física, ele descobriu que era bom corredor de longas distâncias. Quando foi morar no interior do Paraná, Vitor tinha um amigo que jogava basquete e quis jogar tão bem quanto ele. “Eu tive que jogar basquete”, diz, como um desígnio do destino que o levou para o lado do esporte que todo mundo vai e, embora a medicina fosse uma grande paixão, quando chegou a época do vestibular, no meio da década de 1980, ele acabou passando em educação física, Quando isso aconteceu, o surfe já fazia parte da sua vida. Vitor começou a surfar relativamente tarde, com 14 anos, mas, foi na faculdade que, graças ao amigo Luiz Fernado Kupizck, passou a levar a coisa mais a sério.
É curioso que seu amor pela água tenha começado como um amor de fim de semana, na cidade de Irati, no Paraná. Ele ia ao clube da cidade e via as pessoas na piscina, nadando bem e pulando dos trampolins, e, imediatamente, quis ser melhor ou, ao menos, igual naquilo também.
Sua infância no Brasil, foi completamente diferente da infância que teria no Havaí. Vitor diz que, se existe uma coisa que inveja nos havaianos, é a relação que eles têm com o mar. Para ele, os havaianos são o elo mais próximo com a cidade perdida de Atlântida. Aprender a surfar, pra um havaiano, é como aprender a andar de bicicleta. “Tudo é relacionado à água lá no Havaí. Eles nascem e vão pra água e brincam naquele quebra-côco pequeninho, os pais mostram como são as leis do oceano, os esquemas de corrente, vento e maré, como se pesca no mar, como você sobrevive do mar, como você respeita o mar, como você se diverte no mar. Às vezes eu fico olhando a criançada que sai da aula e vai pra praia e fico pensando: ‘eu queria ter passado pelo que eles passaram’. Porque você vê a alegria daquelas crianças brincando no short-break e eles se divertem rolando naquelas ondinhas pequeninhas na praia. O mar ensina pra eles aquele tempo de ida e volta porque eles são tão pequenininhos e às vezes eles perdem o pé, não alcançam o fundo e flutuam até vir aquele vagalhãozinho que empurra e daí eles andam até a areia”, lembra.
O que ele aprendeu rapidamente quando se mudou pro Havaí foi que lá, se você gosta do mar, não é só o surfe que vai fazer você feliz. “Se o mar vai te fazer feliz, tudo que você fizer nele vai te fazer feliz”, diz.
Se você é o tipo de pessoa que acredita que acaso existe, seria capaz de acreditar que Vitor virou salva-vidas por acaso. Um dia, ele participou de um resgate e descobriu que haveria um teste para escolher novos recrutas. Um bom desafio? Vitor foi lá, fez o teste e passou.
Para ele, não existe folga na profissão de salva-vidas. “O que me realiza nesse trabalho é que é um trabalho que, mesmo se não fosse pago, faria do mesmo modo. Porque você quer. Em muitas ocasiões em que a gente teve que fazer o resgate quase de noite porque a gente estava abrindo a porta do carro pra ir embora e veio uma pessoa correndo, pedindo ajuda pra um amigo que estava na corrente. Não dá pra você fechar o porta-malas do carro e dizer ‘olha, deu meu horário e eu vou ter que ir embora’. Aquilo ali é um trabalho pro resto de sua vida. É que nem um policial. Até quando ele não está trabalhando como policial, ele é um policial e ele vai defender o bem. A gratificação é essa. Porque não há preço que pague isso. Mesmo que você tenha feito um resgate e seja pago por isso, quando você pega uma pessoa que você resgatou e vê aquela vida voltar, você pensa que você fez uma diferença e essa é a gratificação do nosso trabalho”.
Essa sensação de fazer a diferença dá a impressão de que tudo está se encaixando, que o mundo está rodando direitinho e que tudo está no seu devido lugar. É uma sensação parecida que um artista tem quando consegue imprimir sua alma numa obra.
Uma nítida sensação de que existe um meio de salvar o mundo.
Só que existe um outro lado.
“Quando você vai resgatar uma pessoa e pega ela morta, você é obrigado a encarar uma parte da vida que você nunca tinha encarado antes. Você é levado a saber aceitar essa parte da vida que vem por aí. Isso pode acontecer com qualquer um. Eu já vi várias pessoas morrendo na minha frente, já peguei pessoas mortas e isso faz parte da sua profissão. Então, você não deixa a emoção dominar você. Aquilo ali, você leva pra uma outra parte da sua vida que é: como você vai ver as coisas acontecerem no futuro, com a família, por exemplo? A partir de um momento da minha vida, eu comecei a pensar assim: durante a sua vida, determinados testes são colocados diante de você e você escolhe aceitar ou não. Há pessoas que não passam por isso. E aí, quando acontece uma morte da família, é difícil da pessoa aceitar. Isso me ajuda a entender um pouquinho mais do que vai vir e eu acho que esse entendimento é bom”

EM DEFESA DA VIDA


Existe um ensaio de Schopenhauer, citado por Joseph Campbell (no capítulo que fala “Sacrifício e Bem-Aventurança”) em que o filósofo se pergunta como é que uma pessoa pode participar tão intensamente do perigo e da dor que aflige o outro a ponto de – sem sequer pensar – ser capaz de sacrificar, espontaneamente, sua própria vida por esse outro. Como pode um sujeito anular, do nada, aquela lei que a gente acha que é a lei número um da natureza – a lei da autopreservação?
Então, Campbell cita o Havaí em um caso que ilustraria bem a questão. Há por lá um lugar chamado Pali, onde o vento norte sopre forte através de uma cadeia de montanhas e que é um notório ponto de suicídios. Ele conta que dois policiais, ao passarem por lá, dão conta que um jovem estava encostado à amurada e prestes a pular. O primeiro policial tenta segurar o jovem, mas faz isso justamente no momento que ele está saltando e teria sido carregado junto com o suicida se o segundo policial não tivesse arrumado um jeito de segurar os dois. Pense no primeiro policial, aquele que quase morreu. Ele não pensou duas vezes antes de se colocar a ponto de morrer – e, de fato, teria morrido se não fosse o segundo policial. Aí, um repórter pergunta ao policial que quase morreu: “Por que você não o deixou cair? Você podia ter morrido com ele”. E o policial responde: “Eu não podia. Se tivesse deixado aquele jovem cair, não poderia viver mais um dia da minha vida”.
Vitor entende isso perfeitamente.
Para o alemão, o que acontece nesse caso é uma súbita e irracional percepção de que você e o próximo são um só. Os dois são aspectos diferentes de uma só vida e que essa é uma coisa que a gente só vê como duas coisas separadas porque nossa existência normal limita essa percepção em tempo e espaço. Essa percepção da vida como uma só pode aparecer em momentos de crise e, para Schopenhauer, foi a verdade de sua vida. Uma verdade que Vitor vivencia dia após dia em Waimea Bay. É uma pessoa como Vitor que Campbell define como herói: aquele que está pronto para dar sua vida física em troca de alguma espécie de realização dessa verdade. É uma versão hardcore do ensinamento bíblico de que devemos amar ao próximo como a nós mesmos.
“Eu lembro a primeira vez que eu trabalhei em Sunset Beach, quando eu tinha que provar pra eles que eu ia conseguir salvar uma pessoa... A gente tinha fechado a praia e um garoto alugou uma prancha e quis passar pelo lado. Os outros salva-vidas não viram o que estava acontecendo e, nesse momento, eu tive que entrar na água e provar pra todo mundo que eu seria capaz de tirar essa pessoa, sabe? Eu me lembro que eu levei uma prancha grande e um rescue-tube, aquela bóia de salva-vidas, e o quebra-côco estava tão grande que eu perdi a prancha na metade e, daí, eu tive que fazer o resto tudo a nado. O swell era tão grande... Eu estava no meio do canal e as ondas quebravam dos dois lados e, com um swell assim, você não vê a pessoa, que é uma cabeça pequenininha lá longe. As vezes, você tenta olhar pra torre pra ver se eles sinalizam alguma coisa pra você, né? E não tinha jet-ski na água naquela época... Eu lembro que eu coloquei minha cabeça pra baixo e comecei a rezar: ‘Meu Deus, me ajude a achar esse cara’ e fui nadando assim. De repente, na próxima braçada, minha mão foi bem na cabeça da pessoa. Olhei pra ele e assustei e o cara berrava assim: ‘Meu Deus, me tire daqui’. Eu me lembro que na hora eu já me acalmei. Olhei pra torre e a torre estava tão longe, estava meio que escurecendo e eu via os caminhões do corpo de bombeiro, com luz ligada, ambulância, um monte de gente ali na praia, olhando, todo mundo querendo saber o que estava acontecendo... Aí eu pensei: ‘Tá, eu peguei o cara... Agora eu quero ver como é que eu vou voltar com ele!’. E aí, foi estranho. Sabe o que foi estranho? Na corrida entre a torre, passando pela areia, as borboletas no estômago estavam assim (faz um gesto que denota agitação), mas parece que, a partir do momento que você toca a água, tudo já se transforma, sabe? Vem uma serenidade e você fica mais tranqüilo. Eu me lembro que eu nadei com ele CONTRA A CORRENTE, porque dos dois lados que podia trazer, eu tinha medo de perder o cara. Você perde uma pessoa ali, fácil, com o tamanho das ondas. Então, eu remei contra a corrente em diagonal e tirei ele da água. E quando eu tirei ele da água, ele saiu correndo por um canto que era pra ninguém ver ele, porque ele tava com vergonha. Aí, o pessoal me perguntou por que é que eu tinha tirado ele por ali e eu respondia que tive medo de perder ele nas ondas. E me perguntavam como é que eu tinha agüentado remar contra a corrente e eu respondia ‘não sei’. Aí, depois, eu fiquei pensando e acho eu foi porque eu fiquei falando ‘Meu Deus, meu Deus, me ajuda tirar esse cara’ e, quando encontrei com ele, pensei ‘Pronto, agora vamos pra cá’. Eu vim pelo lado errado, mas ainda consegui entrar. Ninguém acreditava que eu tinha conseguido entrar por ali – e nem eu mesmo acreditava – mas, na hora, eu achei que aquele era o melhor lugar pra entrar com ele. Esse eu não esqueço porque eu me lembro que foi meu primeiro dia. O que acontece depois é que você acostuma tanto com as coisas que você faz que, depois, no relato das coisas - tem as que mais marcam, s que menos marcam, as que marcam muito e você nunca vai esquecer – mas não passa de mais um dia no escritório. É o teu trabalho aquilo ali. Você vai lembrar de quantos você já ressuscitou? Eu não lembro. Eles estão vivos, então, ótimo”.

IDENTIDADE BRASILEIRA


Antes que tudo acabasse, eu quis saber dele como é ser um brasileiro no Havaí. “É engraçado porque, quando você muda pra fora do Brasil, você começa a ver as coisas de uma outra maneira. Aí, você meio que não se sente mais brasileiro por uma parte do tempo, mas é besteira. Depois de um tempo, você vê que você é mesmo daqui, que você pertence a isso aqui, não importa quanto tempo você more fora. Aparecem umas controvérsias na sua cabeça – sobre quem você realmente é – depois de um período. Não sei se é com todo mundo, mas comigo houve isso aí. É aí que você vê quem realmente você é. Por mais que as pessoas falem isso ou aquilo do nosso país, você começa a ver as coisas de um jeito diferente porque você mora lá e todo mundo pensa que é melhor... Talvez até seja! Só que, quando você começa a ver de onde vem teu povo, tua cultura, você começa a perceber quem você realmente é. As vezes demora pra você ver isso, sabe? Você começa a ver como o seu país é quando você começa a ver a cultura dele. Por exemplo, eu estive no Recife agora, Nunca tinha tido contato com a cultura do Recife. Sabia o que era frevo, o que era maracatu, mas não tinha idéia do que era aquilo de verdade. Eu vi uma dança de umas crianças carentes que moravam em uma favela, que são ajudadas pelo governo pra manterem essa tradição cultural, elas fizeram uma dança do caboclinho, fizeram maracatu e frevo e eu fiquei impressionado. Tinham dois amigos meus, havaianos, comigo e eles disseram: ‘você não pode perder a base da tua cultura porque é a base da sua formação, do seu caráter’, sabe? Você começa a ver isso mais claramente quando você mora fora. Aqui é difícil e você acaba passando por cima de tudo isso sem apreciar as coisas. Quando você mora fora do país e começa a voltar pra cá você começa a gostar de quem você é. Acho que é sempre assim. Você nunca vai dar valor pro que você tem e pra cultura do seu país até você morar fora. Porque aí é que você vê a riqueza que seu país tem e fica com orgulho disso. É parte de quem você é. O que você está vendo é realmente a sua identidade. Eu falei com uma pessoa outro dia e ela me disse assim ‘eu me identifico com a cultura havaiana’ e eu até fiquei pensando se essa pessoa realmente sabe o que é a cultura havaiana. Eu gosto da cultura deles, eu aprendo as coisas da cultura deles, afinal, eu moro lá. Mas eu tento levar as duas coisas juntas. Eu sou como sou, um brasileiro morando lá. A gente tem que tentar entender a cultura das outras pessoas pra saber com é que a gente se aproxima do lugar, sabe? Mas eu não posso dizer que eu me identifico com a cultura havaiana. Eu me identifico com a cultura do meu país, que é de onde eu realmente sou”

MAR SEM FIM


Aí, eu pergunto ao Vitor qual ele acha que foi a maior conquista de sua vida. “A maior conquista da minha vida? Sabe que eu acho que não tive uma ainda? Eu acho que ainda estou conquistando... Ainda estou tentando conquistar. Ou então, vai ser assim pra sempre, todo dia tentando conquistar um pouquinho mais até o dia que eu morrer. Acho que nunca acaba. Eu sempre vou querer aprender mais. Nunca vai acabar pra mim”.

EPÍLOGO


Pra mim, acabaria aqui, se eu não tivesse deixado a história do táxi por terminar.
Eu me recosto no banco e o motorista me diz assim: “Sei quem ele é”. Continuei ouvindo. O taxista me conta que é salva-vidas e que fez seu teste atravessando o canal de Bertioga, com a maré tentando arremessar seu corpo contra as pedras e ele enjoado, vomitando, sem jamais parar de nadar. Conta que nesse teste, quando estava chegando na praia, teve uma cãibra tão forte que teve que voltar atrás na arrebentação, dar um jeito nas pernas e, depois, chegar exausto na praia. Aí, ele vai me contando sobre salvamentos que fez, sobre como é difícil tirar alguém da água, até que a gente chega no lugar marcado e o Amendoim, vendo o táxi encostar, diz: “Fernando?”.
Agradeço ao taxista pela conversa e pergunto seu nome.
“Meu nome é Brasil”, ele diz.
E eu fecho a conta.

1 comentários:

Taís disse...

Olá cara!
Só queria dizer que li teu texto na segunda edição do "revista Deusas" e, sem dúvida, foi um dos melhores! O sonho foi realmente demais! XD

(e desculpe por não comentar o seu post, estou REALMENTE sem tempo @_@ e o troço é bem grande pelo visto XD)