20.3.09

Uma espécie de release: Terremoto Torquemada




Então, deixa eu contar como foi que o Terremoto Torquemada começou a existir.
Tem todo aquele negócio sobre o nome da banda, mas o que o Terremoto Torquemada fazia vinha de antes de haver um nome pra isso.
Eu sei porque fui eu quem começou a fazer essa merda e mais: quem deu pra essa merda o nome de Terremoto Torquemada fui eu.
Isso você pode ver num outro texto, que eu e não tem porquê ficar contando de novo.
Então, eu preciso que você lembre daquele Oscar em que Central do Brasil perdeu pra A Vida É Bela e a Fernandona perdeu o Oscar pra Gwyneth Paltrow. Naquela noite, depois de um encontro mágico daqueles dignos da série “There Must Na Angel” em que um homem me disse que o que faltava ao mundo era as pessoas dizerem “oi, vim te ver” às outras, vi a entrega dos prêmios na casa da Andréa Lago, junto com o Ricardinho.
O Ricardinho tinha acabado de solucionar um impasse.
Faz um tempo, o ex-baixista da banda dele, o Edu, tinha esquecido um violão elétrico empenado lá na casa dele. Ele ia se casar com a Fabiana e estava se livrando de todo tipo de entulho que havia na casa dos pais e ligou pro Edu.
“Aquele violão?”, perguntou o cara. “Pode queimar”.
O Ricardinho, aparentemente, achou que havia algo pior pra se fazer com um violão e deu o coitado de presente pra mim.
Era um arremedo.
Era quase uma guitarra.
Faltava uma corda e ela não sustentava afinação por nada nesse mundo.
Você afinava as cordas de cima e as cordas de baixo desafinavam.
Eram cordas de aço, duras que só.
Eu amei.
Tudo bem que ela não sustentasse a afinação nas cordas de baixo – eu não queria nada com elas.
Tudo bem que faltasse uma corda – só havia duas que eu realmente usava mesmo.
Tudo bem que ele fosse feio – eu mesmo não era lá grande coisa.
O violão ficou um tempo comigo, nos meus últimos dias na antiga sede da 01, na rua Romilda. Era uma casa grande e um lugar do caralho pra se trabalhar. O Zappa, que toca guitarra no Garbage Truck, e o Otávio, que tocou no Pork A Light, ficavam tentando me ensinar a tocar qualquer coisa. O Zappa conseguiu me adestrar pra que eu tocasse “Louie Louie” e, na primeira festa que teve na casa do Igor, toquei umas 96 mil versões diferentes com 96 mil letras diferentes. O Otávio me ensinou a tocar “Orgasmatron” que virou uma variação mais mongolóide que fui capaz de executar por horas a fio naquela maldita festa em que a gente tocou no quarto do Igor e o Marcelo – o vizinho de trás – disse que a gente tocava tão mal que a mulher dele tava com medo que satã viesse pessoalmente buscar o filho dela.
Terremoto Torquemada não é simplesmente uma banda.
É uma coisa que você pode fazer mesmo que não saiba tocar.
Simples assim: você pega seu dedo médio, levanta ele como se fosse mandar o Bush tomar no cu e encosta ele nas cordas de um jeito que ele alcance todas elas. Aí, você escolhe um lugar em que faça barulho e vai tocando o mais rápido que você pode. Você pode começar a fazer isso por qualquer motivo, mas um bom motivo é porque você não tem habilidade o bastante pra tocar o que querem que você toque.
Atenção: é essencial, pra isso, que você tenha um pacto com o baterista. Por que com o baterista? Porque se as mulheres são de Vênus e os homens são de Marte, bateristas são de Plutão e eles adoram fazer essas coisas que fazem muito barulho e pouco sentido.
Quando o barulho da guitarra parecer alguma coisa como ‘gan-gan-dã-ran-gan-gan-dã-ran-gan-gan-dã-ran-gan-gan-dã-ran-gan-gan-dã-ran”, tente entrar no ritmo gritando as palavras “terremoto-torquemada-terremoto-torquemada-terremoto-torquemada- terremoto-torquemada”.
Se não der pra entrar no ritmo, pode ser fora do ritmo também. Mas entre.
Entre porque Terremoto Torquemada é isso aí.
Mais que a democratização da música: a SIMIALIZAÇÃO da música.
Pra que, quando os donos do circo resolvam se ausentar para furunfar com a mulher barbada, os macacos estejam a postos pra assumir o comando.
Mesmo que só por uns instantes.

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