2.2.09

Quando éramos reis





Tô sentado ao lado de um pintor. Sei que ele é pintor porque ele usa uma calça manchada de tinta que só um pintor usaria. Ele dorme. A menina que tem cara de peixe pegou o mesmo ônibus que eu outra vez – hoje ela fez maquiagem pra alongar os olhos, tipo gatinho, e tá com cara de peixe gato. O pintor dorme com as pernas abertas e fica encostando o joelho em mim. Ele tá dormindo, ele é pintor e a tinta deve dar algum tipo de alergia nas virilhas dele, sei lá, pode ser. Não sei. O fato é que ele fica com aquelas pernas abertas o tempo todo e parece que, quanto mais profundamente ele dorme, mais ele vai abrindo as pernas.
Mais ou menos na altura do Conjunto Nacional sobe uma mulher que parece com a Madonna.
Acho que foi porque eu li “Éramos Todos Thunderbirds”, do Mário Bortolotto, que é uma peça em que existe uma “Madonna” que é personagem, que reparei nela.
Presta atenção: não que ela pareça a Madonna agora.
Ela parece a Madonna dos anos 80 – pense em buço, pense em axilas peludas e pense em raízes negras de cabelos tigidos de loiro – e deve ter mais ou menos a mesma idade que eu.
Pensei comigo: o que faz uma pessoa se fantasiar de Madonna nos anos 80 e vir passear na avenida paulista em plena sexta-feira. Aí, ela encostou naquela porta inútil do ônibus e deu pra ver o rosto dela. Os lábios dela eram um batom só. A maquiagem era toda exagerada. Se me chamou atenção a outra, a que fez olhos de gatinhos e ficou com cara de peixe-gato, imagina essa que parecia um guaxinim?
Aí, ela me olhou.
Como se soubesse o que eu tava pensando e me pedisse licença pra ser quem ela era.
A Madonna 1987.
Era um olhar triste.
Triste pra caralho.
E é foda.
Em 1987, eu tinha acabado de entrar na oitava série e nem sabia que ia bombar aquele ano por ler gibi demais, por ouvir música demais e por matar aula demais. Claro que a viagem dos meus pais no terceiro bimestre também ajudou bastante, mas eu lembro da Madonna muito bem em 1987.
Ela tinha acabado de lançar o True Blue e a faixa-título do disco ficou na minha cabeça por um tempo. Porque naquela época eu era apaixonado por uma menina que se chamava Camila e foi a primeira vez que eu decidi que meu amor não seria platônico. Escrevia cartas pra ela toda semana e mandava uma amiga minha entregar. Essa minha amiga, a Mariane, sempre vinha me contar o que ela tinha achado da carta e, sempre que a resposta era boa, era “True Blue”, a música, que me vinha na cabeça. Era uma época engraçada aquela em que eu ficava com o rádio ligado e sempre com uma fita pausada no REC. O objetivo era gravar as músicas mais legais de um jeito que não tivesse pausa entre elas. Naquela época ainda não existia nem a 89 e eu adorava ouvir o Emílio Surita na Jovem Pan, junto com uma outra mulher (a Monica Venerabile, se não me engano). Por causa da Pan, eu também tinha uma outra fita que era só pra gravar quadros de humor – e eu adorava as aulas de inglês.
Hoje estava eu indo pra Jovem Pan em uma sexta-feira chuvosa. O Emílio trabalha na mesma sala que eu e é mil vezes mais interessante do que eu jamais fui capaz de sonhar. E hoje, quem faz os quadros de humor da Pan – nunca com a mesma competência – sou eu.
E quem é que pode culpar a moça por querer se parecercom a Madonna em 1987.
Em 1987, essa moça devia ser feliz como eu era – pelo menos até a Camila me chamar na sala dela (ela era da 8ªB e eu da 8ªC) e dizer que era pra eu parar de mandar aquelas cartas porque ela não tava gostando.
Em 2009, eu ouço no mp3-player uma versão de doze polegadas para “Hey Now”, dos Talking Heads. E quando aquele menino abre a música gritando o trecho da letra que diz “I AM THE KING OF THE WORLD! BOSS OF BOYS AND GIRLS” não posso evitar a sensação de já ter matado minha fome e, agora, ver os outros comendo.
Éramos todos thunderbirds, sim.
Agora, não vemos a hora de nos tornarmos Humphrey Bogart.

2 comentários:

Joice Viana disse...

Aaaah, eu podia ter nascido um pouquinho antes, em 87 tinha 4 anos ainda e tava perdendo um monte de coisa ¬¬'
Seu trabalho deve ser divertido... e o post ficou ótimo ;)

R.R. disse...

Concordo. Em 87 eu ia completar 5 anos, e o Depeche Mode lançaria o Music for the Masses, que tinha entre outras Strangelove... a música que me acompanha sempre.
Sempre quis ter tido uma chance de viver naqueles tempos.