19.2.09

Enquanto isso, agora, ao mesmo tempo




O ano era 1989. Eu estava no 1ºB do Colégio Anglo Latino e, como todos os alunos do Anglo Latino (onde você entra burro e sai cretino), eu tinha um pesadelo. Era a Vitória, professora de redação. As lendas a respeito dela começavam logo ao fim da oitava série – e eu tive dois finais de oitava série, o que me garantia duas vezes mais pesadelos.

Quando saiu o horário das aulas, logo no primeiro dia, eu vi Deus vestido de preto, estalando seu chicote – aquele barbudo sádico. A Vitória ia dar aula pra gente só na sexta-feira. Isso significava que a gente ia ter um tempo pra se acostumar com a idéia. Por outro lado, significava também que teríamos que conviver com uma semana toda de lendas sobre o que teria acontecido na aula dela em todas as outras classes antes que, por fim, ela chegasse ao 1ºB.

O 1ºA foi primeiro e não restou pedra sobre pedra. Mesmo os puxa sacos – e o 1ºA era CHEIO deles – se foderam. Até o Alfredo, que era um aluno brilhante, foi corrigido até no “bom dia”. Com ela não tinha esse negócio de “tinha esse negócio” - era “havia esse negócio” e fim de papo.

No 1ºC, que era a classe onde estava a maioria dos meus amigos, ela mandou oito pra sala do seu Elon em menos de quinze minutos de aula. Mandou o Reinaldo, o Marcão e o Dárcio, que não conseguiram controlar um ataque de riso. Depois mandou o Luís, o Sálvia, o Fred, o Se Young e a Alessandra, porque a Alessandra era a Alessandra e bateu boca com ela. Os outros quatro eram loucos pra comer a Alessandra e, quando a Vitória disse “saia” pra ela, eles imediatamente levantaram e disseram “nós vamos também”, a que ela não opôs resistência.

O 1ºD, a classe reservada aos repetentes, retardados e sociopatas em geral foi um sucesso. Só uma pessoa foi mandada embora – o Cléo, que ao sair da classe mostrou o dedo médio – que era só metade do V de vitória – e cuspiu algo parecido com o distintivo do Palmeiras na lousa.

No 1ºE não deu tempo de saber muita coisa. Antes que a gente pudesse perguntar, a Vitória já vinha pelo corredor na direção da nossa sala. Eu podia ouvir a Marcha Imperial ao fundo e tive a impressão de ouvir até a respiração asmática do Darth Vader enquanto ela se aproximava, mas não era dela, nem dele: era minha.

Quando a aula começou, não deu tempo nem dela chegar no meu nome.
Tinha o Bigode.
A gente chamava de Bigode, mas o nome dele é Eduardo e Eduardo vem antes de Fernando na lista de chamada.
E ela implicou com o sobrenome dele.
Pra ela, o sobrenome dele deveria ter acento, porque era uma proparóxitona.
Pra ele, todas as proparóxitonas são acentuadas, menos quando são sobrenome.
E ela passou o resto no ano chamando o cara pelo sobrenome, como se fosse o tipo de oxítona que, pela atual reforma ortográfica, não se acentua mais.

Na minha classe, os piores de todos éramos o Max, o Clebinho e eu.

O Clebinho e eu tomamos providências rápidas, fomos sentar nas primeiras carteiras, bem na frente da mesa do professor – o que, pensando bem, não foi exatamente uma boa idéia.

Era justamente nisso quando eu estava pensando quando ouvi, pela terceira vez, meu nome.
- “Quem é Fernando Tucori?”, ela perguntava com os olhos chispando em fúria.

Uma voz de criança sussurrou no meu ouvido:
- “Responde: 'é eu'!”.

O cheiro de cetim, que me lembrava fantasias de carnaval da minha infância fez minha pele coçar e, mesmo sem pensar, repeti:

- “É eu!”.

Quarenta e oito alunos respiraram tão fundo naquele momento que, se não houvesse uma janela aberta, estaríamos todos no vácuo e ninguém ouviria a Vitória dizer, entre dentes:

- “SOU EU!”.

Acho que eu fui parar em outro lugar, virei outra pessoa ou outra boca falou por mim, mas, quando o turbilhão passou, a classe explodia de dar risada e eu não entendia o porquê.

- “Então, SAMO NÓIS”.

Minha memória ainda ecoava essa frase.

Ela soava como se fosse minha e eu sabia que não era.

Olhei, então, para o Parque da Aclimação e um borrão azul celeste assustava os patos na beira do lago e fluía sem que nada pudesse detê-lo.

Vinte anos depois, um dia antes da Vitória, minha sobrinha, completar seis anos, o borrão apareceu outra vez..

Desta vez mais nítido.

Infinitamente mais bonito.

Pedi a ele que encostasse a cabeça no meu ombro, ofereci um alpino trigêmeo e segurei sua mão, repetindo a fala final do filme que vi ontem.

“Why took you so long?”.

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