8.2.09

#01Dream


Ela olhava nos meus olhos, firmemente, como se quisesse me empurrar pra trás com um golpe de pupila. Devia ter alguma coisa a ver com o fato dela falar, falar e eu não conseguir ouvir. Podia ler seus lábios sim e, por Deus, eu leria os Lusíadas, a Bíblia e toda a obra que é de Shakespeare (e mais tudo aquilo que atribuem à Shakespeare) naqueles lindos lábios. Resistance is useless. And unwanted.
Curvou, então, na direção do solo e lá colheu uma pedra bem bonita, daquelas capazes de matar uma pessoa, bang!, no meio dos olhos. Limpou a terra cuidadosamente e, num esgar de olhos, inspecionou a pedra. Eu podia ver de onde estava a maravilha que ela tinha em mãos. Encaixava direitinho na mão dela e ela sabia disso, porque a jogava para cima em curtos saltos, como que para balancear o arremesso.
Foi igual, nos filmes de beisebol – tipo aquele, Bull Durham, com o Kevin Costner. Foi com um serpentear de braço que aquela pedra me veio ao rosto. Ao rosto, exatamente, não. Ela bateu numa espécie de vidro que havia entre nós. E esse vidro foi craquelando, craquelando e eu acho que forcei ele a ter o formato da borboleta do final de “Eu sou a Lenda”. Não sei se foi isso ou se me chamou atenção o fato de uma borboleta estar pousada sobre o nada, o que me sugeria que o tal nada não era exatamente “nada”.
Aí, tava por minha conta. A fissura existia e cabia a mim, com as próprias mãos, abrir caminho por ela adentro. Acho que foi tentando fazer aquela coisa que o Homem-Aranha faz no jogo de videogame, dei dois toquinhos no joystick, pra direita, e deixei um rastro azul no espaço, indo direto ao outro lado.
A primeira sensação que eu tive era que o olhar dela me acariciava como a brisa fresca que vem da montanha. Afinal, ela é das montanhas. Mas não era não. Era brisa de verdade. E eu havia me esquecido de como era essa brisa, como era se sentir abraçado por ela, com um frio que gela os olhos e te faz chorar. E o olhar dela ainda me acariciava, apenas não era a brisa e eu não sabia dizer qual era melhor.
Com os olhos marejados d’água, que eu atribuí ao frio que me cortava as córneas, ouvi o barulho de grilos.
Grilos!
Eu nem lembrava mais que havia grilo no mundo!
E, então, houve o abraço
e o frio entrou na minha boca
e veio fundo pra dentro de mim
e eu acordei
e o frio saiu como vapor num suspiro
e não consegui mais dormir até que o dia clareou
e eu achei lindo o jeito com que Johnny Cash combina com o nascer do sol.

Na varanda do vizinho da frente, uma velha gorda lavava roupa e cantava Tim Maia.
E eu disse boa noite pro dia.
E fui dormir.

2 comentários:

Joice Viana disse...

Tem um tempo já que tô olhando aqui pra esse formulário em branco sem saber o que dizer. Já esbocei comentário sério, pastelão, já pensei em não comentar nada, mas aí vai parecer que eu não ligo e eu não quero isso. Mas não sei mesmo. Você não sonhou nada disso, pelo menos não enquanto dormia. Senão eu teria que admitir que alguém tem sonhos mais bizarros que os meus. Especialmente na parte de jogar a pedra para cima e ela cair de volta na mão. Tudo que eu jogo, e isso inclui pedras, bolas de sinuca e dardos, são guiados por um Gerador de Improbabilidade Infinita, ou seja, eles acabam caindo em QUALQUER LUGAR, desde que não seja o lugar onde eu queria que caíssem inicialmente. Tá vendo, dei uma volta no sistema solar e não falei nada que fizesse sentido. Mas tá lindo o post, adorei =*

Rose Carreiro disse...

Todo gordo canta Tim Maia?

A Laura dança Tim Maia e faz a Joice passar vergonha, coitada. Procuro tratamento para esquizofrenia.

Isso tudo aí que tu sonha, eu tenho ao vivo quase todo dia. Morra de inveja =P

Beijo