11.5.07

Uma Temporada no Inferno - Preâmbulo

Você, que assim como eu, leu "Mate-me Por Favor" e achou do caralho e achou, sobretudo, que daria a vida, o rabo e o que mais lhe aprouvesse dar pra fazer parte daquilo...
Você, como eu, é um idiota.
Vai vendo.
Quem escreveu a história daquela época fomos nós, os jornalistas musicais bêbados que perceberam que, pra ganhar a merda que ganhavam escrevendo sempre as mesmas coisas sobre as mesmas bandas, era melhor não ganhar nada pra escrever coisas diferentes sobre bandas diferentes.
Naquela época, da Nova York da primeira metade dos anos 70, os tempos eram bicudos como são hoje.
O prefeito de Nova York tinha pedido ajuda pro governo e recebeu um belo dedo médio em riste.
São Paulo, em abril de 2007, é uma cidade tão fodida quanto NY'75.
No ano passado, durante os ataques do PCC à capital paulista, foi mais ou menos a mesma coisa que rolou.
O presente é um lugar bem legal pra se morar, sabe?
A gente achava que aqueles caras da turma do Bob Gruen tiveram foi sorte de estar naquela época e naquele lugar. Vai dizer isso na cara de um deles, vai...
É sorte mesmo o nome disso?
A gente pode ser bêbado - pode ser até pior: pode ser jornalista musical – mas a gente presta atenção nas coisas. Numa época bicuda como essa, um autêntico jornalista musical bêbado já arrumou seu emprego redigindo santinhos pra político e, pra tirar uma onda, vai cobrir shows.
Você pode tirar o tigre de dentro da floresta, mas não vai tirar a floresta de dentro do tigre.
Mas quem é que vai comprar uma matéria dessas?
Olha: pra provar que eu não tô numa de me fazer de coitado, vou mudar a pergunta: "por que diabos é que eu vou querer vender essa matéria?".
Estar num lugar que EU acho interessante, vendo uma banda que EU acho interessante é motivo o bastante pra me fazer escrever.
Tem blog.
Tem um monte de site legal por aí que não tem grana pra pagar colaborador, mas que dá uma visibilidade linda pra bons textos.
Publicar, publica-se.
O que eu não quero é sujar minhas mãos na merda e a merda é esse jornalismo-rock-economicamente-viável, que ou é arqueologia de segunda ou é assessoria de imprensa de primeira.
O que eu quero dizer é mais que um "não quero escrever sobre o Capital Inicial".
Eu gosto dos caras.
O Dinho é um dos caras mais legais que eu já entrevistei, mas, de boa: eu não preciso mais falar do Capital Inicial.
Tem gente o bastante fazendo isso.
Não precisam de mim.
Precisam de mim aqui, no campo, indo atrás do meu nariz.
Acreditando no telefonema do Embu numa porra de uma manhã de Sexta-Feira Santa dizendo "vai ver esse show, senão é arrependimento pro resto da vida, malandragem".
Precisam de mim pro caso daquele jornalista inglês não vir dizer que o Cansei de Ser Sexy é do caralho na mesma semana em que eu escrevi que ver o CSS ao vivo era o equivalente a dançar com os Ewoks no final de "O Retorno de Jedi".
Pode reparar: é a mesma coisa, só que na sua língua.Não estou dizendo pra que você me publique porque eu sou o melhor jornalismo musical do mundo.
Eu moro bem no centro de São Paulo.
Na porta do meu prédio tem um travesti fazendo ponto e ele parece o Dee Snider do Twisted Sister.
Em volta de mim tem a Funhouse, tem o Outs, tem o Java, tudo muito perto.
E tem o INFERNO, que sempre me recebe de portas abertas e não é porque eu sou o melhor jornalista do mundo.
CARALHO!
Eu moro no CENTRO da PORRA da cidade de SÃO PAULO!
Se eu quiser ser o melhor jornalista musical DO MEU BAIRRO é melhor eu empacotar as coisas e mudar pra VILA RÉ!
Eu só quero me divertir fazendo o que eu gosto.
Claro.
É bom que se diga, também, que, comprando essa matéria, você vai poder editar do jeito que quiser e esse pode ser o único jeito de publicar o texto sem ESTE PREÂMBULO.
De qualquer modo, esta matéria não está à venda.
Se eu resolver vender, vou estar trabalhando pra você.
O que eu quero deixar bem claro é que é você, querido editor, quem está trabalhando pra mim.Afinal, o que é cinquenta pau entre dois amigos, não?
Só escrevi pra dizer que eu cansei de ser idiota e pra saber se o senhor vem junto.
Se for vir, liga e avisa.Eu deixo seu nome na porta.
É na Augusta.
Quinhentos e um, que nem a Levi's.
Lembra da Levi's.

BEM VINDO
AO INFERNO.

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