11.5.07

Capítulo 1 (Parte 2)
Cafeína, Nicotina e umas mina


Eu fico a maior parte do tempo de lado, curtindo o som que o Flávio põe pra tocar. As pessoas esperam sentadas na beirada do palco e não sei por que eu sempre tenho boas lembranças de festas em que as pessoas esperam a banda sentadas no palco.
Um casal vem se catando pela parede e parece disposto a me atropelar.
Saio imediatamente do caminho por questões religiosas. "Não toparás ménage à trois quando a maioria tem pau.
De repente, Bruna Tang, vocalista do Undershower, se materializa na minha frente e me pergunta se esse negócio de eu ficar encostado na parede só olhando é porque eu estou esperando alguém me tirar pra dançar. Explico que tô tão chapado de cafeína que tenho que me encostar na parede pra ter certeza de que sou eu – e não o mundo – que está tremendo.
Pergunto pra Bruna quem são as bandas que vão tocar e ela diz que a primeira é Madame Mim, que vai entrar logo mais no palco. Depois tem Undershower, aí Montage e, por último, Multiplex.
Se no último show do Undershower que eu fui, a súbita queda de pressão do Bob não deixou que a gente trocasse muita idéia, agora é diferente e a gente consegue conversar bastante. A Bruna me conta da importância da Georginha, a primeira guitarrista, na consolidação do Undershower como banda, diz que agora quem toca com ela é o Drico, marido dela. Ela apresenta a gente e nenhum de nós era capaz de dizer que a noite ia acabar com o Drico e eu dançando a dancinha de missão cumprida ao som de "Stray Cat Strut".
Quando a gente parecia que ia engatar na história do alheamento crítico, um zunido começa no palco e é a hora do show da Madame Mim começar. É uma dupla. Uma menina canta a maioria das letras em espanhol e um cara no teclado, que parece o George Lucas e é apresentado como Super Puto. O show é legal e parece haver duas bandas ali. Uma mais rítmica e outra mais melódica. A mais melódica é bastante interessante e a mais rítmica é meio que mais uma banda electro com letras legais.
No fim do show, uma menina vem à frente do palco e faz reverência pra banda.
É a vez do Undershower e o pessoal na pista dançou bem e ainda quer mais. É tudo certo pra um bom show quando, do nada, alguma coisa pifa no palco, alguém põe som mecânico, o Drico gesticula que alguma coisa pifou e se o palco tinha deixado de ser o foco por um tempo, as pessoas começaram a ir pro bar e, quando o Undershower começou, teve que aquecer todo mundo, tudo de novo e, por conta dos problemas, acabou fazendo um show mais curto.
Quando ficou bom de verdade, era hora de acabar.
Deixei escapar um "ah" no curto tempo que o Flávio demorou pra colocar a versão do Motorhead pra "Please Don´t Touch".
Não demora muito até que o Montage esteja no palco. "Oi. Eu não sou o Daniel e este não é o Montage". O show que eles fazem é interessante e o Daniel tem mesmo uma puta presença de palco. Confesso que comecei a querer comparar o Daniel com o Iggy Pop e cheguei até a formular um pensamento sério, que dizia que o Iggy, quando rolava no chão, rolava por mim e por você e que o Daniel. Quando faz a mesma coisa, faz por ele e só por ele. Ia perecer que eu estava querendo diferenciar um coração cheio de napalm de um chilique qualquer, mas não é isso.
Acho que eles não querem sangrar na praça de touros como Iggy gosta de fazer. Eles não tem a pretensão de morrer pelos nossos pecados. Só querem perdão para os deles. É tão justo e legítimo quanto é justo e legítimo, pra você, rezar pro teu deus antes de dormir, seja teu deus qual for.
O show do Multiplex começa com uma versão pra "I'm Wainting For The man", do Velvet Underground. O vocalista, vergando uma capa preta, verga o corpo sobre o microfone e lembra um pouco o Arthur Veríssimo,da Trip, que é um cara que eu sempre tive vontade de ver cantando em uma banda. O Multiplex é a banda da noite que mais perto chega da configuração da banda do século XXI. Ainda existe e sempre haverá banda de garagem, mas você há de convir comigo que hoje em dia, a banda ensaia onde o computador está e, com isso, tem um monte de banda de apartamento, banda de cozinha, banda de quarto de empregada... Dê você o nome pra elas.
Você vai saber quem são elas: são bandas que, pela primeira vez em eras, prezam como poucas a catarse instrumental, que é aquele momento em que parece que todo mundo sola junto, mas, na real, tá todo mundo fazendo base.
Quando acaba o show, as filas se formam nos caixas e a melhor coisa é ficar e dançar mais um pouco. Isso, pra quem estava de olhos bem abertos tentando encaixar as peças do quebra cabeça enquanto ele ainda estava no ar, significa, bem provavelmente, dizer que, tudo bem, que o trampo acabou e que, agora, se você estiver a fim, você pode relaxar e dançar com o que restou do teu corpo. Ia tocando "Stray Cat Strut".
Foi aí que o Drico chegou e começou a dançar também. Os dois perna-dura – ele tem desculpa: tava com a guitarra nas costas) dançando que nem bobo, do jeito que fosse, porque agora podia.
Entendeu a história da dancinha de missão cumprida?
Então: missão cumprida.
A gente podia dançar.
Voltei pra casa ouvindo, bem ironicamente, "Straight To Hell", com o Clash. A trilha sonora perfeita pra que ia descendo a Caio Prado, arrastando os calcanhares, na direção de um encontro inadiável com uma bic preta e um calhamaço de folha de papel.

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