16.1.07

sacanagem não postar

















tava lá na praça de alimentação do shopping e tava aquela bagunça.
todo mundo querendo pegar almoço e guardar mesa ao mesmo tempo
e eu querendo um saquinho que fosse pra botar a comida dentro
e comer sentado na mureta do canteiro.

não sei porque,
mas eu achei que aquela menina desesperada não ia ter a calma de fazer uma coisa dessas e disse pra ela:
"vc quer mesmo comer aqui?".
ela estranhou, mas respondeu:
"nem fodendo. aqui era o último lugar que eu queria comer".
a bandeja dela tinha um lanche, uma coca, uma batatinha e uns molhinhos.
voltamos pro bob's e colocamos todo o lanche dela dentro de um saco de papel, como o meu estava.
"quanto tempo você tem de almoço? uma hora?".
ela me olhou como se eu tivesse falado uma palavra secreta rosa-cruz.
"uma hora sim", ela disse.
"mas eu nunca faço uma hora", acrescentou.
"faz mais?".
"não! menos, sempre menos"
"ah... por quê?"
"por que o quê?"
"por que menos? faz a hora que vc tem direito. aposto que vc sai tarde tb"
"mas eu fico arrumando os negócios"
"ahn"

esse era o momento.

se eu dissesse só esse "ahn", as coisas ficavam ali mesmo e nada demais.
só mais um dia de tédio no paraíso. mas não.
"pega seu lanche e vem um pouco comigo"
"onde a gente vai?"
"sair daqui. você falou que não tava a fim de comer aqui?"
e a gente foi ppro estacionamento onde eu deixava o carro,
antes dele ser demolido.
era um casarão daqueles lindos,
sombrios e manchados pra sempre num verde musgo,
à sombra de uma seringueira que tinha crescido mais do que arquiteto da casa recomendaria.
a gente ficou a hora de almoço toda sentado num degrau fresco de concreto,
deixando cair folhinhas da salada do sanduíche
em cima do capô do meu carro, que tava logo abaixo
e falando sobre o quando a gente perde de tempo.

teve uma vez que eu acordei a noite
e vi meu hammster correndo numa rodinha
daquelas onde os hamsters correm.
pensei "onde caralhos que ele acha que vai chegar correndo desse jeito?".

naquele dia, de manhã, eu tinha ido limpar a gaiola dele
e ele tava dormindo dentro de uma tampa de maionese.
depois que eu terminei a limpeza
e peguei ele pra botar de volta da gaiola,
ele me abriu aqueles olhinhos sonolentos
e provavelmente pensou algo parecido com
"onde caralhos que ele acha que vai chegar correndo desse jeito?".

e ela e eu ganhamos um mundo.
o mundo em volta de nós.

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